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		<title>amável Jano</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Jan 2012 22:04:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Helô</dc:creator>
				<category><![CDATA[escritos]]></category>

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		<description><![CDATA[Beijo seu rosto, e sei que posso fazê-lo por anos a fio sem você desconfiar de minha repulsa. Talvez você saiba que cada vez que sorrimos juntos, juramos assassinato mútuo. Hoje você estava tão adorável, com seus olhos azuis enormes e brilhantes e superestimados. Só saíram palavras gentis de sua boca, como se quisesse mostrar [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=meninadobalaio.wordpress.com&amp;blog=3934700&amp;post=2101&amp;subd=meninadobalaio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Beijo seu rosto, e sei que posso fazê-lo por anos a fio sem você desconfiar de minha repulsa. Talvez você saiba que cada vez que sorrimos juntos, juramos assassinato mútuo.<br />
Hoje você estava tão adorável, com seus olhos azuis enormes e brilhantes e superestimados. Só saíram palavras gentis de sua boca, como se quisesse mostrar que é melhor que minha ironia. Estou disposto, quando quiser, a mostrar-lhe como tudo o você fala apodrece em cinco minutos, sendo tão inútil para o mundo quanto sua inteligência, se é que há alguma.<br />
De fato, você era a mulher mais linda do recinto, especialmente enquanto jogava esses seus cabelos de cor indefinida, maravilhosamente lisos &#8211; não é isso que suas amigas dizem enquanto se contorcem de inveja? Me pergunto se você tem amigas mesmo. Talvez tenha, afinal, é tão doce enquanto observa o sofrimento silencioso de todos ao seu redor, fingindo se importar e demonstrando essa sua vontade interminável de acabar com toda a tristeza do mundo.<br />
Mas, minha amiga! Sabemos bem que quem a conhece intimamente a ama ainda mais. Sei muito bem como é fácil também, enganar os mais próximos, é isto que os rumores dizem que faço. Que podemos fazer? Desdenhar de sua sabedoria milenarmente construída sobre frases exaustivamente repetidas é um crime. Bom senso é seu nome do meio, não importa a circunstância, não importam os resultados que somente os tolos que a adoram não vêem.<br />
Nos amamos mesmo assim, e você não poderia ser mais perfeita, querida e amiga.<br />
E não é por menos: sei ser pior do que você jamais conseguiu ser, e como você disse, apenas a desprezo por inveja e mágoa.<br />
Deixemos assim parecer.</p>
<br />Filed under: <a href='http://meninadobalaio.wordpress.com/category/escritos/'>escritos</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/meninadobalaio.wordpress.com/2101/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/meninadobalaio.wordpress.com/2101/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/meninadobalaio.wordpress.com/2101/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/meninadobalaio.wordpress.com/2101/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/meninadobalaio.wordpress.com/2101/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/meninadobalaio.wordpress.com/2101/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/meninadobalaio.wordpress.com/2101/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/meninadobalaio.wordpress.com/2101/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/meninadobalaio.wordpress.com/2101/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/meninadobalaio.wordpress.com/2101/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/meninadobalaio.wordpress.com/2101/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/meninadobalaio.wordpress.com/2101/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/meninadobalaio.wordpress.com/2101/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/meninadobalaio.wordpress.com/2101/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=meninadobalaio.wordpress.com&amp;blog=3934700&amp;post=2101&amp;subd=meninadobalaio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O Homem Dos Sonhos</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Jan 2012 03:44:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Helô</dc:creator>
				<category><![CDATA[escritos]]></category>

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		<description><![CDATA[O homem andava muito despreocupado e sonhador pelas ruas. Não precisava que conhecessem sua história ou que o amassem. Sabia amar a vida, ou ser indiferente à ela. E assim, andava distraído e sonhador pelas ruas. Passava por mil templos e pregadores, sempre ignorante das verdades e maldições que o atingiriam no eterno. Se eram [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=meninadobalaio.wordpress.com&amp;blog=3934700&amp;post=2098&amp;subd=meninadobalaio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img alt="" src="http://data.whicdn.com/images/15608091/tumblr_lrmqojkuVO1r2o4d6o1_500_large.jpg" title="tringle" class="aligncenter" width="500" height="500" /></p>
<p>O homem andava muito despreocupado e sonhador pelas ruas. Não precisava que conhecessem sua história ou que o amassem. Sabia amar a vida, ou ser indiferente à ela. E assim, andava distraído e sonhador pelas ruas.<br />
Passava por mil templos e pregadores, sempre ignorante das verdades e maldições que o atingiriam no eterno. Se eram barulhos ou silêncio, disso pouco sabia. Disso, sabia que era homem, que tinha seu trabalho, o alimento de cada dia e das roupas que o cobriam.<br />
Inconformados com a serenidade indiferente do homem, todo tipo de pessoa o tentou convencer de que o mundo é mais do que o mundo, e as coisas não são e são muito o que parecem. O martelavam todos os dias e em todos os lugares com tanta sabedoria e estupidez, que  homem começou a pensar se seus sonhos eram mesmo apenas sonhos.<br />
Foi repentinamente estranho ver que seus sonhos não eram a realidade. Teve de se acostumar a acordar todos os dias e se perguntar se estava mesmo acordado, no mundo tão real e tão acusativo. Se o que acontecera à noite era aceitável pelas verdades ditas, e se não, se era sonho ou realidade, pois era difícil de passar de um mundo ao outro.<br />
Passou a supor que seus sonhos eram verdade, em um mundo paralelo, como haviam dito os outros, existem dois ou mais mundos, e todos reais, e um muito melhor que o outro. E assim soube que seus sonhos eram acontecimentos de fato.<br />
Assim, trazia relatórios desse mundo ideal todos os dias para quem pudesse e se interessasse.<br />
Não demorou a ser identificado como um mensageiro, profeta, santo! Em todos os lugares em que caminhou foi venerado e procurado.<br />
Por várias semanas teve tempo de deixar seu emprego, sua casa, roupas e comida. Seu emprego era sonhar, sua casa era  templo mais generoso e roupas e comida eram o que lhe davam. Em sua testa, tatuara com a própria mão um terceiro olho dentro de um triângulo, instruído por mestres e místicos, de forma a abrir sua visão para os sonhos.<br />
Muitas pessoas o pagavam muito dinheiro pelos seus sonhos e sabedoria. Não fosse seu desapego, seria rico. Sem ambição, porém, dispensava todo o lucro para o templo que o acolhia à ocasião.<br />
Quando deixou de saber qual mundo era o que estava acordado em corpo, sua queda se iniciou. Agindo como se estivesse em sonho, disse atrocidades em plenos pulmões, entoava canções sem sentido, pulava períodos inteiros de tempo e pouco se importava com o decoro vigente. Aos olhos da sociedade que o cercava, a loucura o acometera.<br />
Tão logo conquistou a fama, a perdeu e não demorou para ser posto na rua, para vagar e se elucidar.<br />
Sem trabalho, roupas, comida e sanidade, vagou por todas as ruas. Pediu e pediu. Foi preso inúmeras vezes. Não sabia o que lhe acontecera, e se perguntava se não iria logo acordar.<br />
E a última vez que foi visto, sentava-se no banco de concreto, trajando-se como uma criança. Devorava um pedaço de bolo como se o salvasse de toda a desnutrição e doença que o dominava. A comida parecia crescer em sua mão, não importava o quando mordesse, até que acabou, repentinamente. Sua tatuagem ainda estava exposta em sua testa, e via-se logo: gotas de sonhos brotavam dela em suor. </p>
<br />Filed under: <a href='http://meninadobalaio.wordpress.com/category/escritos/'>escritos</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/meninadobalaio.wordpress.com/2098/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/meninadobalaio.wordpress.com/2098/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/meninadobalaio.wordpress.com/2098/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/meninadobalaio.wordpress.com/2098/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/meninadobalaio.wordpress.com/2098/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/meninadobalaio.wordpress.com/2098/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/meninadobalaio.wordpress.com/2098/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/meninadobalaio.wordpress.com/2098/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/meninadobalaio.wordpress.com/2098/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/meninadobalaio.wordpress.com/2098/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/meninadobalaio.wordpress.com/2098/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/meninadobalaio.wordpress.com/2098/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/meninadobalaio.wordpress.com/2098/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/meninadobalaio.wordpress.com/2098/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=meninadobalaio.wordpress.com&amp;blog=3934700&amp;post=2098&amp;subd=meninadobalaio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Não há lúcidos debaixo da luz (ou acima)</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Jan 2012 03:13:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Helô</dc:creator>
				<category><![CDATA[escritos]]></category>

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		<description><![CDATA[Porque apenas gostar de sobrancelhas inexpressivas e ego tão grande não poderia apetecer por tanto tempo outra vastidão altérica-egórica. E se for para se encantar por expressões tão loucas perdidas em uma psicodelía interna tão desarrumada quanto suas estantes, tão inexpressiva quanto seu rosto. Antes se disfarçar de sol e ser a insolação que acomete [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=meninadobalaio.wordpress.com&amp;blog=3934700&amp;post=2096&amp;subd=meninadobalaio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Porque apenas gostar de sobrancelhas inexpressivas e ego tão grande não poderia apetecer por tanto tempo outra vastidão altérica-egórica. E se for para se encantar por expressões tão loucas perdidas em uma psicodelía interna tão desarrumada quanto suas estantes, tão inexpressiva quanto seu rosto. Antes se disfarçar de sol e ser a insolação que acomete os despreocupados e imprudentes. Não há nada novo nas sombras acima e abaixo do sol e continuamos os mesmos. E mesmo agora tão alterada e sem palavras consigo dizer que deveria ter bebido outro copo. Ser tão alcançável pode cansar e logo estaremos ambos brigando a pelo mesmo motivo que nos disse que era bom que nos espalhássemos. Guarde suas mãos delicadas e nervosas para pintar seu autorretrato que nunca fica pronto e estou sempre disposta a jogar água e cobrir com um pano. Que guardo minhas palavras ácidas para quem precisa e desperdiço os dias de divagação agitada com trabalhos enfadonhos e músicas dúbias.</p>
<br />Filed under: <a href='http://meninadobalaio.wordpress.com/category/escritos/'>escritos</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/meninadobalaio.wordpress.com/2096/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/meninadobalaio.wordpress.com/2096/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/meninadobalaio.wordpress.com/2096/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/meninadobalaio.wordpress.com/2096/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/meninadobalaio.wordpress.com/2096/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/meninadobalaio.wordpress.com/2096/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/meninadobalaio.wordpress.com/2096/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/meninadobalaio.wordpress.com/2096/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/meninadobalaio.wordpress.com/2096/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/meninadobalaio.wordpress.com/2096/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/meninadobalaio.wordpress.com/2096/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/meninadobalaio.wordpress.com/2096/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/meninadobalaio.wordpress.com/2096/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/meninadobalaio.wordpress.com/2096/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=meninadobalaio.wordpress.com&amp;blog=3934700&amp;post=2096&amp;subd=meninadobalaio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>porque os vitrais</title>
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		<pubDate>Wed, 18 Jan 2012 19:04:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Helô</dc:creator>
				<category><![CDATA[escritos]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[No baú guardei um buraco negro eternamente a sugar uma estrela triste. Esqueci o céu frio azul e imutável o neguei e rejeitei e lá ele ficou. Na campina verde invernal apenas caminhei sem deitar o corpo do passado. Elegi os vitrais doces e suas cores e luz comigo carrego. Filed under: escritos, Poesia<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=meninadobalaio.wordpress.com&amp;blog=3934700&amp;post=2069&amp;subd=meninadobalaio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No baú guardei<br />
um buraco negro<br />
eternamente a sugar<br />
uma estrela triste.</p>
<p>Esqueci o céu frio<br />
azul e imutável<br />
o neguei e rejeitei<br />
e lá ele ficou.</p>
<p>Na campina verde invernal<br />
apenas caminhei sem deitar<br />
o corpo do passado.</p>
<p>Elegi os vitrais doces<br />
e suas cores e luz<br />
comigo carrego.</p>
<br />Filed under: <a href='http://meninadobalaio.wordpress.com/category/escritos/'>escritos</a>, <a href='http://meninadobalaio.wordpress.com/category/escritos/poesia/'>Poesia</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/meninadobalaio.wordpress.com/2069/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/meninadobalaio.wordpress.com/2069/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/meninadobalaio.wordpress.com/2069/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/meninadobalaio.wordpress.com/2069/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/meninadobalaio.wordpress.com/2069/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/meninadobalaio.wordpress.com/2069/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/meninadobalaio.wordpress.com/2069/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/meninadobalaio.wordpress.com/2069/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/meninadobalaio.wordpress.com/2069/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/meninadobalaio.wordpress.com/2069/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/meninadobalaio.wordpress.com/2069/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/meninadobalaio.wordpress.com/2069/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/meninadobalaio.wordpress.com/2069/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/meninadobalaio.wordpress.com/2069/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=meninadobalaio.wordpress.com&amp;blog=3934700&amp;post=2069&amp;subd=meninadobalaio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>Caso à parte: meme?</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Jan 2012 21:14:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Helô</dc:creator>
				<category><![CDATA[escritos]]></category>

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		<description><![CDATA[Quem frequenta esse humilde cantinho sabe que deixei de fazer memes ou posts não &#8220;literais&#8221; há, tipo, anos. Mas fui coagida convidada pela Bia a responder umas perguntinhas. Não que seja do interesse de vocês, mas pode conter algumas recomendações de leitura. Porque amo escrever, mas amo ainda mais ler, e sou particularmente maluca por [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=meninadobalaio.wordpress.com&amp;blog=3934700&amp;post=2063&amp;subd=meninadobalaio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quem frequenta esse humilde cantinho sabe que deixei de fazer memes ou posts não &#8220;literais&#8221; há, tipo, anos. Mas fui <del datetime="2012-01-12T20:37:18+00:00">coagida</del> convidada pela <a href="http://www.chocolatenoteclado.com" target="_blank">Bia</a> a responder umas perguntinhas.<br />
Não que seja do interesse de vocês, mas pode conter algumas recomendações de leitura. Porque amo escrever, mas amo ainda mais ler, e sou particularmente maluca por livros.</p>
<p><strong>Meta de Leitura</strong>: Honestamente, não tenho. Minha meta se restringe aos 15 livros que tenho para ler atualmente. Conforme compro outros vou lendo e lendo e lendo. Quem sabe eu volte a anotar e poste a lista em algum lugar.</p>
<p><strong>Primeiro do Ano</strong>: O Pensamento Vivo de John Lennon. Foi uma releitura, na verdade, mas conta. O primeiro não-lido que estou lendo é Primeiras Estórias, Guimarães Rosa. </p>
<p><strong>Gênero que vou ler mais</strong>: Ficção Científica. Ah, adoro. </p>
<p><strong>Gênero que vou ler menos</strong>: Nenhum, magina, ler menos algum gênero!</p>
<p><strong>Lançamento internacional mais aguardado</strong>: Parei de aguardar lançamentos com Harry Potter.<br />
<strong>Lançamento nacional mais aguardado</strong>: ^</p>
<p><strong>Continuação de saga mais aguardada</strong>: Silencio, da Becca Fitzpatrick. </p>
<p><strong>Final de saga mais aguardado</strong>: Sagas atuais não têm fim.</p>
<p><strong>Próximas compras</strong>: Toda a triologia de Jogos Vorazes (intimada, cof cof) e todos os livros de Sherlock Holmes. E o que mais encontrar no sebo baratinho.</p>
<p>Aparentemente, tem que escolher alguém para continuar. E, bem, eu escolheria a <a href="http://ameninadoslivros.wordpress.com/" target="_blank">Carol</a>.  Mas aí vai do juízo dela querer fazer ou não. </p>
<br />Filed under: <a href='http://meninadobalaio.wordpress.com/category/escritos/'>escritos</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/meninadobalaio.wordpress.com/2063/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/meninadobalaio.wordpress.com/2063/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/meninadobalaio.wordpress.com/2063/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/meninadobalaio.wordpress.com/2063/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/meninadobalaio.wordpress.com/2063/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/meninadobalaio.wordpress.com/2063/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/meninadobalaio.wordpress.com/2063/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/meninadobalaio.wordpress.com/2063/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/meninadobalaio.wordpress.com/2063/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/meninadobalaio.wordpress.com/2063/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/meninadobalaio.wordpress.com/2063/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/meninadobalaio.wordpress.com/2063/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/meninadobalaio.wordpress.com/2063/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/meninadobalaio.wordpress.com/2063/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=meninadobalaio.wordpress.com&amp;blog=3934700&amp;post=2063&amp;subd=meninadobalaio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">Helô</media:title>
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		<title>Díspar</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Jan 2012 00:11:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Helô</dc:creator>
				<category><![CDATA[escritos]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>

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		<description><![CDATA[O dia estava insolitamente bicolor. Era tudo branco e preto. Mesmo os sons da rua pareciam tímidos. Nem os passarinhos cantavam. Guilherme não conseguia parar de se perguntar se não estava preso em algum filme mudo de Chaplin ou coisa parecida. Parado no ponto de ônibus, sentia o mundo girar ao seu redor. Um caleidoscópio [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=meninadobalaio.wordpress.com&amp;blog=3934700&amp;post=2059&amp;subd=meninadobalaio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img alt="" src="http://data.whicdn.com/images/15406606/tumblr_ls9kcctvjr1qdafzao1_500_large.jpg" title="heterocromia" class="aligncenter" width="500" height="300" /></p>
<p>O dia estava insolitamente bicolor. Era tudo branco e preto. Mesmo os sons da rua pareciam tímidos. Nem os passarinhos cantavam. Guilherme não conseguia parar de se perguntar se não estava preso em algum filme mudo de Chaplin ou coisa parecida. Parado no ponto de ônibus, sentia o mundo girar ao seu redor. Um caleidoscópio preto e branco com cheiro de terra molhada.<br />
Talvez fosse o sono atrasado que o fizesse duvidar da certeza clara e concreta que era os olhos da moça ao seu lado.<br />
Precisou olhar no mínimo cinco ou seis vezes.<br />
Bem, um olho era castanho claro. Gentil, doce, lembrava nozes de natal.<br />
O outro era azul. Azul céu, desses azuis incontestáveis. É azul e ponto, muito bonito o seu olho azul.<br />
E o mundo parecia girar ainda mais.<br />
Afinal, perdera uma lente? Não parecia o caso. Eram naturais, Guilherme podia ver isso. Naturais. A moça tinha uma dessas alterações genéticas e tudo mais. Provavelmente sofreu na escola, o que explica a atitude reservada. Embora estivessem em um ponto de ônibus, não em um bar com bebida grátis. Talvez fosse o sono atrasado.<br />
Guilherme a olhou mais uma sétima ou oitava vez. Os olhos. Nem sabia se era o esquerdo ou direito que era castanho ou azul. Ela parecia ser bonita. Tinha algo laranja. A cor do cabelo? Quem liga para cor de cabelo quando os olhos são tão caleidoscópicos?</p>
<p>&#8212;</p>
<p>Parecia que a chuva iria ceder, e mais duas cores foram acrescentadas ao cinema mudo. Um verde primaveril despontava de todas as partes, e aqui e ali surgiam manchas aguadas de azul no céu.<br />
O banco de Guilherme estava completamente reclinado. A viagem era relativamente curta, mas iria aproveitar de cada pequeno conforto e tempo para dormir. Voltaria logo para casa, mas antes viajaria muito.<br />
Na janela milhares de plantas e árvores cobriam a serra grande e eterna. Na verdade, tudo parecia um grande brócolis. Sempre pensava em brócolis.<br />
Fechou os olhos, versões escuras da paisagem continuaram a passar no verso das pálpebras.<br />
Antes de dormir, um olho castanho piscou para ele. E o par azul sorriu de canto.</p>
<p>&#8212;</p>
<p>A vida se passa em um ponto de ônibus, pensava Guilherme insistentemente. E nem sempre há coisas legais em pontos de ônibus. Apenas gente entediada, cansada.<br />
Vinte minutos depois, estava no último banco, confortavelmente enroscado em seus fones de ouvido. Iria para casa.<br />
Mais uma vez, estava na serra eternamente coberta de brócolis. E para sua sorte, o sol se punha. Os raios escapavam entre as saliências das rochas descompostos em duas cores. Vermelho e laranja. De repente, tudo estava banhado de fogo, o ônibus contornava a estrada, jogando os passageiros de um lado para o outro. Um caleidoscópio gigante. Em chamas.<br />
E quando a viagem acabou, Guilherme se adiantou para frente cedo demais e acabou esperando sentado. Ao seu lado, uma moça de saia laranja também esperava. E dessa vez ele olhou três vezes até entender que eram os mesmo olhos díspares de mais cedo, no filme mudo. Ela, por sua vez, o viu e teve de rever, lembrando do rosto e das roupas.<br />
Sorriram juntos, quase rindo da coincidência.<br />
E ela era realmente linda.<br />
O olho direito castanho claro. O esquerdo azul.<br />
Se girasse seria um caleidoscópio.<br />
Desceram e foram cada um para seu caminho, a nunca mais se verem.<br />
E para Guilherme, os cabelos dela eram vermelhos e laranja.<br />
A moça toda cores.</p>
<br />Filed under: <a href='http://meninadobalaio.wordpress.com/category/escritos/'>escritos</a>, <a href='http://meninadobalaio.wordpress.com/category/escritos/prosa/'>Prosa</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/meninadobalaio.wordpress.com/2059/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/meninadobalaio.wordpress.com/2059/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/meninadobalaio.wordpress.com/2059/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/meninadobalaio.wordpress.com/2059/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/meninadobalaio.wordpress.com/2059/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/meninadobalaio.wordpress.com/2059/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/meninadobalaio.wordpress.com/2059/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/meninadobalaio.wordpress.com/2059/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/meninadobalaio.wordpress.com/2059/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/meninadobalaio.wordpress.com/2059/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/meninadobalaio.wordpress.com/2059/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/meninadobalaio.wordpress.com/2059/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/meninadobalaio.wordpress.com/2059/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/meninadobalaio.wordpress.com/2059/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=meninadobalaio.wordpress.com&amp;blog=3934700&amp;post=2059&amp;subd=meninadobalaio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">Helô</media:title>
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			<media:title type="html">heterocromia</media:title>
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	</item>
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		<title>O Último Cliente</title>
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		<pubDate>Tue, 27 Dec 2011 22:19:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Helô</dc:creator>
				<category><![CDATA[escritos]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>

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		<description><![CDATA[A padaria já estava para fechar. Era meia-noite passada, já que no fim do ano era costume o estabelecimento ficar aberto até mais tarde. Júlio terminava de arrumar as últimas coisas no balcão. Estava cansado, trabalhara o dia todo em pé, mal tivera tempo de comer ou sequer pensar. Mas sabia que ainda não tinha [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=meninadobalaio.wordpress.com&amp;blog=3934700&amp;post=2048&amp;subd=meninadobalaio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A padaria já estava para fechar. Era meia-noite passada, já que no fim do ano era costume o estabelecimento ficar aberto até mais tarde. Júlio terminava de arrumar as últimas coisas no balcão. Estava cansado, trabalhara o dia todo em pé, mal tivera tempo de comer ou sequer pensar.<br />
Mas sabia que ainda não tinha acabado. Faltava o último dos últimos clientes. O velho tomava sempre o último chocolate quente do dia. Não importava o clima. Mesmo no verão, aos 31°C da noite, o senhor pedia o tal do chocolate quente e bebia até o fim. Júlio sabia que era um homem sozinho e que provavelmente não sabia cozinhar muito bem. O balconista e o senhor costumavam conversar até o fim da noite, quando, finalmente, as portas da padaria eram fechadas e Júlio podia subir em sua moto e ir para casa. Não sabia onde o velho morava, mas devia ser perto, talvez ali do lado.<br />
Portanto, Júlio enrolou por dez minutos naquela noite, esperando o último cliente.<br />
Ouviu com uma certa alegria o senhor passar pela caixa na noite e a cumprimentar. Gostava do velho, e embora ele não aparecer não fosse grande coisa, certamente ficaria preocupado. Ele era bem velho.<br />
O senhor se aproximou do balcão se apoiando pesadamente em sua bengala de madeira. Toda vez que Júlio olhava para ele não via o idoso encurvado, cheio de rugas com uma barriga de bola &#8211; via o vigoroso homem que ele devia ter sido mais novo. Via um homem alto, forte, com cabelos espessos, olhos brilhantes. Era uma imagem forte, mesmo após anos de convivência de fim de expediente.<br />
O último cliente sentou-se em um dos bancos junto ao balcão e cumprimentou afavelmente:<br />
- Boa noite, Júlio. Como vai?<br />
Como sempre, o balconista sorriu e respondeu no mesmo tom afável:<br />
- Boa noite, seu Leôncio. O de sempre?<br />
- Sim, Júlio, o de sempre.<br />
Enquanto Júlio preparava a bebida em uma xícara já separada, Leôncio apoiou-se melhor no balcão continuou falando:<br />
- A vida, meu rapaz, é estranha. Desculpe se pareço, hã, pedante ou aborrecido. Sou um homem velho, mas nunca o importunei com conversas de velhos, não é? Pelo menos espero que não! Hê. Mas hoje não foi um dia muito bom, sabe. Aconteceu tudo o que não podia. Levantei com o pé esquerdo, sabe. Na hora do almoço já tinha amaldiçoado metade dos meus vizinhos e pelo menos vinte divindades. Mas apesar disso, me peguei pensando agorinha mesmo: a vida é estranha e boa, meu rapaz. A vida é estranhíssima. Ah, muito obrigado!<br />
O chocolate estava pronto. Seu cheiro se espalhava por todo o lugar, antes cheio. O idoso misturou e bebida displicentemente, provavelmente mastigando a continuação do discurso.<br />
- Hoje o senhor está com uma conversa diferente das outras, mas não chata. Pode continuar. Veja, até me sentarei aqui perto.<br />
- Então faça um chocolate para si, moleque! Eu pago&#8230;<br />
- Muito bem. Estou morto de fome mesmo&#8230;<br />
- E a Vanessa? &#8211; se referia à moça no caixa.<br />
- Ela já lanchou. E não se importa de me deixar aqui sozinho, já fechamos o expediente mesmo.<br />
- Então esse chocolate&#8230;?<br />
- Por conta da casa. Fica tranquilo, seu Leôncio.<br />
- Bem, tudo bem&#8230; amanhã eu pago&#8230; se não acordar completamente gagá, não é?<br />
Ambos riram alegremente. Júlio preparou sua ceia com rapidez, e sentou-se ao lado do senhor.<br />
Comeram e beberam sem silêncio por alguns minutos. Na metade do processo, Júlio o indagou:<br />
- Então, o que o senhor ia dizendo?<br />
- Ah, sobre a vida ser estranha.<br />
- Sim. Pode me dizer porquê?<br />
- A vida é estranha, rapaz. Estava refletindo. Veja, tenho um amigo que se envolveu em um esquema de corrupção dentro do governo do estado. Ele era apenas um acessor, mas começou a mexer com dinheiro grande. Uma hora, ele sabia que não daria mais para manter encoberto. O esquema era tão sujo, que por mais que tentassem, não seria possível abafar. E ele sabia que não iria se safar. Os grandões, os políticos talvez fossem, mas ele não. Como disse, era um simples acessor.<br />
- E o que ele fez?<br />
- Ele começou a correr. Correr mesmo, pra valer. Em dois meses, corria 20 quilometros em 37 minutos. Ele devia ter muito medo, pois nunca vi alguém alcançar tal desempenho em tão pouco tempo. Isso e aulas de defesa pessoal, o dinheiro vivo estocado e documentos falsos.<br />
- Bem esperto ele. E então?<br />
- Bom, quando o esquema estourou &#8211; e vou te dizer estourou bem alto e bem fedido &#8211; quando todos descobriram, ele simplesmente saiu correndo. O cara não pegou carro, ônibus, nada. Simplesmente trocou de roupas, ali no escritório mesmo. Tirou o terno e pôs shorts e camiseta de corrida, e foi embora. Não que fosse necessário. A polícia nem estava lá, demoraria dias para aparecer e prender alguém de fato. Talvez houvessem CPIs e o diabo. Não precisava fugir como ele fez. Mas foi assim. E não estou mentindo.<br />
- Acredito em cada palavra. Esse cara devia ter enlouquecido.<br />
- Será? Ele correu até uma casa de subúrbio que ele possuía ilegalmente para guardar coisas ilegais, sabe. Colocou comida na mala, pegou dinheiro e voltou a correr. Rapaz, ele correu até um sítio, a mais de 60 quilometros de distância. Tem idéia do que é isso?<br />
- Nem consigo imaginar.<br />
- Claro que ele chegou de manhãzinha, considerando que a corrida começou no fim do expediente, às 17 horas, mais ou menos.<br />
- E o sítio?<br />
- Bem, tinha uma senhora morando lá.<br />
- Ela deu abrigo?<br />
- Deus, não! &#8211; Leôncio deu uma gargalhada &#8211; Ela atirou nele com uma espingarda!<br />
- O quê? E acertou? &#8211; disse Júlio rindo também.<br />
- Acertou. Ela ouviu uma pessoa rondar o terreno e simplesmente atirou.<br />
- Matou o cara?<br />
- Não, ele se matou.<br />
- Como?<br />
- Bem, ele se viu baleado e surtou, é claro. O cara foge da polícia a pé por mais de 70 quilometros, contando a distância do trabalho até em casa, e quando chega em um lugar teoricamente isolado e seguro, leva chumbo sem nem saber de onde veio.<br />
- Bom, louco ele já estava.<br />
- Sim, mas que situação, não?<br />
- Ele mereceu.<br />
- Ninguém merece morrer, rapaz!<br />
- Não, ele mereceu se dar mal. O cara roubou dinheiro público, ajudou figurões e foi estúpido o suficiente para pensar que escaparia correndo.<br />
- Como eu ia dizendo, a vida é estranha. Mas as pessoas são mais ainda.<br />
Ficaram em silêncio por alguns minutos. Júlio terminou seu lanche, e Seu Leôncio tomou o último gole de chocolate quente.<br />
O balconista se levantou e começou a limpar os vestígios da refeição noturna. Estavam só os dois na padaria, Vanessa fora embora há algum tempo. Então, quando tudo estava em seu lugar e todas as luzes apagadas, se dirigiram para a porta. Júlio trancou todas as fechaduras e enfiou as chaves no bolso. Leôncio olhava para ele, esperando o boa noite habitual.<br />
- Como ele morreu?<br />
- Eu disse que ele se matou, mas não se sabe ao certo se foi suicídio mesmo. O corpo dele foi encontrado dois dias depois, na margem de um rio que corre perto do sítio em que ele foi baleado. Estava todo inchado. Morreu afogado. Uma legista perita chegou a sugerir assassinato, pois havia marcas no pescoço do cara. Mas não passou de uma sugestão, seja pela imensa improbabilidade, seja porque alguém mais poderoso estava envolvido. Enfim, ninguém sabe, e o caso foi arquivado.<br />
- Entendo&#8230;<br />
- Mas nos faz pensar, não é? O cara poderia não ser louco. Talvez a ameaça não fosse a polícia ou coisa assim. Vai saber. Essa gente se envolve com coisas perigosas.<br />
- Não vejo capangas perseguindo alguém a pé.<br />
- Nem eu. Mas às vezes penso que tinha alguém sim, atrás dele. E esse alguém o perseguiu a pé, correndo. E o cara corria porque sabia que se o pegassem ele não teria chances&#8230;<br />
- Ou fugisse de si mesmo.<br />
A luz do poste falhou, dando um pequeno susto na dupla. Tão logo viram o que era, começaram a rir. Júlio se adiantou para a moto estacionado ali perto.<br />
- Dessa vez fiquei com medo. Admito. Enfim, boa noite, seu Leôncio!<br />
- Boa noite, Júlio. Não corra demais! &#8211; respondeu o velho ainda rindo.<br />
- Pode deixar!<br />
E foi embora para o escuro caminho até sua casa.</p>
<br />Filed under: <a href='http://meninadobalaio.wordpress.com/category/escritos/'>escritos</a>, <a href='http://meninadobalaio.wordpress.com/category/escritos/prosa/'>Prosa</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/meninadobalaio.wordpress.com/2048/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/meninadobalaio.wordpress.com/2048/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/meninadobalaio.wordpress.com/2048/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/meninadobalaio.wordpress.com/2048/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/meninadobalaio.wordpress.com/2048/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/meninadobalaio.wordpress.com/2048/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/meninadobalaio.wordpress.com/2048/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/meninadobalaio.wordpress.com/2048/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/meninadobalaio.wordpress.com/2048/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/meninadobalaio.wordpress.com/2048/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/meninadobalaio.wordpress.com/2048/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/meninadobalaio.wordpress.com/2048/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/meninadobalaio.wordpress.com/2048/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/meninadobalaio.wordpress.com/2048/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=meninadobalaio.wordpress.com&amp;blog=3934700&amp;post=2048&amp;subd=meninadobalaio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Black Treacle</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Dec 2011 01:55:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Helô</dc:creator>
				<category><![CDATA[escritos]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando nos vimos não havia uma estrela sequer no céu. Você se lembra? As luzes da rua estavam em alerta. Era fim de ano, não havia um pedaço de sombra por aí quietinho. Tudo estava iluminado, tudo piscava e tinha tanta gente. Para sem sincero, não sei como vi você. Mas, você já deve ter [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=meninadobalaio.wordpress.com&amp;blog=3934700&amp;post=2045&amp;subd=meninadobalaio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img alt="" src="http://data.whicdn.com/images/19631217/yyyy_179574355_large.jpg" title="treacle" class="aligncenter" width="500" height="333" /></p>
<p>Quando nos vimos não havia uma estrela sequer no céu.<br />
Você se lembra? As luzes da rua estavam em alerta. Era fim de ano, não havia um pedaço de sombra por aí quietinho. Tudo estava iluminado, tudo piscava e tinha tanta gente.<br />
Para sem sincero, não sei como vi você.<br />
Mas, você já deve ter imaginado que quando duas pessoas são tão feitas uma para partir o coração da outra como nós, todas as circunstâncias colaboram.<br />
Todas aquelas luzes. O céu preto, queimado, melado.<br />
E seus cabelos dançando.<br />
Sabe, todos os dias eu olho o céu e penso em uma descrição para você. Hoje tinha estrelas. Dava pra contar: umas vinte.<br />
Aposto que onde você mora tem vinte vezes vinte mil. Como purpurina derramada por Deus sem querer.<br />
Mas nunca mais vi o céu preto de quando te vi.<br />
Parecia que alguém sabia que você iria sair, e avisou as estrelas, e então elas se esconderam no meio dos pisca-piscas dos prédios. Do mesmo jeito que na música.<br />
Imagino ver-te todos os dias na rua. Um passa pelo outro, pensa reconhecer, diminui o passo e para enfim. E então, seguimos em frente, porque não era verdade, e estamos longe. Saímos balançando a cabeça até nos encontrarmos novamente para constatar que foi apenas outro engano.<br />
Em todos os cenários o céu não tem uma estrela.<br />
Como melado preto.</p>
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		<title>Abraçar</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Dec 2011 01:04:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Helô</dc:creator>
				<category><![CDATA[escritos]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>

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		<description><![CDATA[Costumava ter essa vontade terrivelmente forte de abraçar as pessoas. Era assim: via queria abraçar. Queria estar o mais próximo possível, ser o mais íntimo possível.  O que é uma pessoa? É um mundo. E queria abraçar esse mundo, estar bem perto, queria abraçar e sentir a pessoa.  Era assim a minha forma de desbravar [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=meninadobalaio.wordpress.com&amp;blog=3934700&amp;post=2043&amp;subd=meninadobalaio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
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<p>Costumava ter essa vontade terrivelmente forte de abraçar as pessoas. Era assim: via queria abraçar. Queria estar o mais próximo possível, ser o mais íntimo possível. </p>
<p>O que é uma pessoa? É um mundo. E queria abraçar esse mundo, estar bem perto, queria abraçar e sentir a pessoa. </p>
<p>Era assim a minha forma de desbravar esses mundos. Não bastava apenas conversar, ouvir confissões, conhecer cada detalhe da vida do indivíduo. Não. Era preciso satisfazer esse desejo gigante e primário de segurar um corpo contra meu corpo, compartilhar o calor, estar <em>o mais próximo possível. </em></p>
<p>Nunca foi fácil. </p>
<p>Quando se tem uma obsessão doentia por abraçar pessoas você vê como é díficil realmente abraçar as pessoas. É preciso conversar, apertar as mãos, dar um beijo, ensaiar um abraço, conversar mais, pagar uma bebida ou uma refeição, alguns meses de contato contínuo e muitos ensaios de abraços. Então, em um dia que pode ser qualquer dia, você vê a pessoa e a abraça de verdade. Passa os braços nos ombros, no tronco, no pescoço, como encaixar melhor e a puxa para si. Mas um abraço de verdade acontece quando você consegue não espremer, mas irradiar uma espécie de ternura para a outra pessoa.</p>
<p>Assim, às vezes era possível notar que havia uma reciprocidade. Imediatamente todas as pessoas correspondem e são raros os casos de rejeição ou indiferença. Se você trabalhar certo, logo consegue uma resposta. Sou especialista nisso. Meu irmão dizia que tenho mesmo é tara por abraços. Eu digo que é apenas um exagero. Abraços são bons, abraços de verdade então, diminuem o mundo todo a um grão de areia. </p>
<p>É, é bem difícil.</p>
<p>Ultimamente têm sido quase impossível conseguir um abraço verdadeiro. As pessoas estão treinadas para escapar de braços como os meus. Nos últimos anos fomos todos condicionados a aceitar carinhos superficiais. Beijos sem significado, apertos de mão sem simpatia, olhares indiferentes e abraços sem ternura.</p>
<p>Posso soar, sei lá, como um velho ou uma dessas pessoas que vivem repetindo que o que veio antes é melhor e que a coisa vai piorar cada vez mais, que nasceu no século errado e toda aquela ladainha que sabemos muito bem. É, posso soar assim. Mas não faço tipo. Não vivo insatisfeito com vida. Talvez o problema não seja o mundo (penso que é, mas que sabe?). Vai ver sou eu mesmo, que envelheço e não sei mais conquistar os abraços que sou tão carente. </p>
<p>Não sei.</p>
<p>Um abraço poderia resolver tudo isso. </p>
<p>Só mais um.</p>
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		<title>A casa de José</title>
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		<pubDate>Sat, 03 Dec 2011 16:40:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Helô</dc:creator>
				<category><![CDATA[escritos]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>

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		<description><![CDATA[Com mais cautela do que era necessária, Lídia atravessou um pequeno jardim obviamente abandonado e entrou na casa agora vazia. Hoje era dia de José ir à sua consulta mensal no psiquiatra. Ele não gostava, mas fazia parte do acordo para ficar do lado de fora da clínica, ou melhor dizendo, hospício. E era somente [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=meninadobalaio.wordpress.com&amp;blog=3934700&amp;post=1932&amp;subd=meninadobalaio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Com mais cautela do que era necessária, Lídia atravessou um pequeno jardim obviamente abandonado e entrou na casa agora vazia. Hoje era dia de José ir à sua consulta mensal no psiquiatra. Ele não gostava, mas fazia parte do acordo para ficar do lado de fora da clínica, ou melhor dizendo, hospício. E era somente nesse dia que Lídia conseguia se aproximar da casa dele. Esperava ele sair espiando entre as cortinas da vizinha da frente, que era sua amiga há anos. O médico ficava a quase duas horas de ônibus dali, e a consulta demorava, em geral, três horas com o tempo de espera. Portanto, a casa passava quase o dia todo vazia. Assim que o ônibus virava a esquina, Lídia seguia rapidamente para o portão enferrujado, cruzava o jardim que era quase uma floresta e adentrava a casinha com sua própria chave.</p>
<p>Todas as vezes ela sentia que parava no tempo. Sempre a mesma coisa: tudo completamente fechado, exceto uma janelinha emperrada logo acima da porta, alta e pequena demais para ser forçada. O cheiro de cigarros, álcool e mofo jamais mudava, e quanto mais tempo ela permanecia ali, mais conseguia distinguir dezenas de odores diferentes: roupas sujas, comida estragada, loção pós-barba, tinta para máquina de escrever, papéis velhos, urina, cerveja, detergente, suor&#8230; Pessoas com o olfato mais apurado certamente enlouqueceriam ali, pensava Lídia todas as vezes.</p>
<p>Não perdia muito tempo, porém. Imediatamente abria sua pesada sacola e tirava uma boa variedade de produtos de limpeza e panos limpos. Colocava as roupas fedorentas na máquina de lavar antiquada, trocava os lençóis esfarrapados e manchados por novos, jogava a comida velha fora, abria todas as janelas para ventilar, lavava cada centímetro de chão e parede, se pudesse. A casa toda parecia coberta de manchas de café e brasa. Podia-se dizer que as únicas coisas que José mantinha limpas era sua cafeteira, cinzeiro e mesa de escrever (como chamava, era uma mesa de madeira escura geralmente lotada de papéis, lápis, pastas e uma grande máquina de escrever muito limpa). </p>
<p>Lídia trabalhava rápido, pois tinha medo de que ele a encontrasse lá, e o relógio de cuco da parede estava quebrado há anos. Não sabia exatamente porque ainda fazia isso, visto que poderia muito bem contratar uma empregada para o trabalho. Se bem orientada e de confiança, poderia fazer um trabalho melhor e mais rápido que Lídia com seus quase 60 anos nas costas. Mas, de certa forma, a mulher sentia que era seu dever invadir a casa de José todo mês e fazer uma faxina que duraria no máximo uma semana. Era seu dever para com ele, por todos os anos de casamento e pelo filho, morto com três meses, que tiveram. Tinha que cuidar de José, mesmo ele negando a existência da ex-mulher.</p>
<p>Tirou as roupas limpas e molhadas da máquina e as enfiou na secadora que comprara para ele anos atrás e mandara entregar com o nome da irmã morta de José (que para ele ainda vivia). Era outra coisa usada apenas uma vez por mês. Lídia não sabia quem ele pensava que limpava a casa todos os meses. Talvez imaginasse que ele mesmo fazia o trabalho e que não se lembrava devido aos remédios. Uma vez Lídia deixou de ir à casa dele por três meses, devido a uma pneumonia fortíssima, quando teve forças e fôlego suficiente para passar pelo portão enferrujado, encontrou milhares de bilhetes  dizendo que faltava alguma coisa, e palavrões pintados caprichosamente com merda em todas as paredes. </p>
<p>Ele vai morrer antes de mim, pensava Lídia todas as vezes. Então corria para o quarto dele e procurava remédios vencidos e drogas. José sempre teve um gosto por drogas quando jovem, dizia que abria a mente e era ótimo para seus romances. Depois que casaram ele havia largado os vícios, e deixara de fumar quando Lídia engravidou. Era um bom homem, pensava a senhora enquanto lavava o banheiro. Jamais vira um pai mais amoroso. A ideia de ter um filho fora dele. Ele quem fizera o quarto, ele quem passara noites em claro quando Lídia ainda estava se recuperando do parto. E fora ele quem notara que o bebê tinha parado de respirar enquanto dormia entre eles na cama de casal, e tentara de todo jeito salvá-lo. </p>
<p>Cada vez com menos frequência Lídia se pegava imaginando em qual momento José enlouquecera. Podia visualizar com clareza ele vigiando o sono do bebê, as duas respirações sincronizadas e aqueles olhos avermelhados de sono transbordando ternura. E então notava que respirava sozinho e que a criancinha estava um pouco mais escura que o normal, talvez soltando engasgos imperceptíveis. O bom pai tentava de tudo: batia nas costas, apertava o diafragma, fazia respirações boca a boca, e quando nada funcionava, começava a chorar e gritar, acordando até a vizinha. Nada adiantou, no entanto, e embora a ambulância tenha chegado rápido demais, só o que encontraram foi um bebê morto, uma mãe descontrolada e um pai fortemente agarrado ao pequeno corpo. </p>
<p>E agora, décadas depois, ali estava Lídia, limpando a nova casa do pai de seu filho. Logo ele chegaria e ela estava um pouco atrasada com as coisas. Como todo mês, tirou fotos dos papéis cobertos de palavras cuidadosamente arrumados na mesa de escrever. Não podia perder tempo lendo um por um, então fotografava tudo e tinha o cuidado de deixar do mesmo jeito que encontrara. Geralmente eram esboços de romances ou contos non-sense. Algumas vezes cartas e outras ensaios incrivelmente lúcidos. Ele perdera a certeza de escrever, embora tentasse desesperadamente.  Era fácil de ver isso. Fácil.</p>
<p>Lídia arrumou suas coisas de volta à sacola, amarrou o grande saco preto de lixo e levou tudo para fora. Trancou a porta e as janelas novamente. José estava para chegar, era hora de ir. Carregou tudo para a rua e encostou o portão. Ainda iria pedir para carpirem aquele jardim antes que infeste de pragas. Deu um último olhar, acenou para a boa vizinha e começou a caminhar para sua própria casa, talvez comesse alguma coisa na rua. Tinha deixado comida de três dias para José, mas sabia que ele iria ignorar e pedir pizza como sempre. Estava virando a esquina quando o viu descendo do ônibus, três casas a frente dela. Então não pôde escapar: ele a viu. Esperou que começasse a gritar como acontecera da última vez que se viram, dois anos antes. No entanto, ele não pareceu reconhecê-la. Olhou para ela com os olhos vazios. Passou por ela com as mãos enterradas nos bolsos das calças e a cumprimentou: &#8220;Bom dia pra senhora&#8221;. </p>
<p>Lídia continuou andando. Talvez tenha assentido com a cabeça, mas não sabia dizer. Ele não sabia quem era ela, e ela não existia para ele. Sorriu e continuou andando. </p>
<br />Filed under: <a href='http://meninadobalaio.wordpress.com/category/escritos/'>escritos</a>, <a href='http://meninadobalaio.wordpress.com/category/escritos/prosa/'>Prosa</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/meninadobalaio.wordpress.com/1932/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/meninadobalaio.wordpress.com/1932/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/meninadobalaio.wordpress.com/1932/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/meninadobalaio.wordpress.com/1932/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/meninadobalaio.wordpress.com/1932/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/meninadobalaio.wordpress.com/1932/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/meninadobalaio.wordpress.com/1932/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/meninadobalaio.wordpress.com/1932/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/meninadobalaio.wordpress.com/1932/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/meninadobalaio.wordpress.com/1932/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/meninadobalaio.wordpress.com/1932/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/meninadobalaio.wordpress.com/1932/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/meninadobalaio.wordpress.com/1932/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/meninadobalaio.wordpress.com/1932/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=meninadobalaio.wordpress.com&amp;blog=3934700&amp;post=1932&amp;subd=meninadobalaio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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