Ramones tocavam sem parar desde as duas da tarde. Eduarda escovava os dentes, meio vestida, os cabelos presos em um coque alto. Amália a observava distraída, vendo sem ver. Quando a amiga retribuiu o olhar, ela desviou os olhos para o resto do quarto. Estava uma bagunça. Boa parte das roupas que possuíam estava jogada em cima da cama. Haviam livros, revistas, desenhos inacabados, trabalhos de faculdade, cadernos completamente rabiscados, todo tipo de lápis, caneta e esmaltes para unhas. Em uma mesinha no canto mal se percebia a pequena cafeteira. Amália adoraria um café fresco agora.
- Você viu minha blusa preta, Mália?
Eduarda agora tentava desbravar o monte de roupas da cama, pegando peças aleatórias e as jogando para um canto.
- Está pendurada na maçaneta do banheiro, Duda.
- Ah, é, nem vi.
Ela vestiu a blusa rapidamente, ajeitando no corpo. Em seguida, correu para a penteadeira lotada de potes de maquiagem e presilhas para cabelos. Começou a se pintar com cuidado, passando corretivo para as olheiras profundas, pó compacto, blush.
- Você está bem, Mália?
Amália se mexeu um pouco na cadeira onde estava sentada.
- Estou sim. Só preciso terminar de fazer algumas redações.
- Hmm.
Eduarda passou delineador em um olho e parou para avaliar o trabalho. Estava perfeito. Amália olhou sem vontade para o computador ligado em seu colo. Desligou e se levantou com um suspiro. Foi lavar o rosto. A água estava gelada e causou um choque agradável no rosto da moça. A voz abafada de Eduarda perguntou:
- Tem certeza de que você está bem?
Amália se olhou no espelho pequeno em cima da pia. A ponta de algumas mechas do cabelo escuro pingavam água. O rosto magro parecia uma caveira na meia luz. A pele ainda molhada não sabia deixar as gotas d’água bonitas e goticulares, como acontecia no rosto de Eduarda. Antes, o líquido se espalhava disforme pelo rosto, não sabendo o que fazer ali, não sabendo se ficava ou ia embora. Piscou e um pouco de água escorreu por sua bochecha.
- Tenho sim, Duda.
Enxugou o rosto e voltou para sua cadeira. Eduarda agora passava delineador no outro olho, tomando o maior cuidado. Amália a observou terminar o traço com um sorriso e olhar para o relógio. A amiga sabia como ser bonita. Era bonita até quando acordava de ressaca.
Eduarda se virou e olhou diretamente para ela. Amália pode sentir os olhos cheios de maquiagem e preocupação a observarem astutamente. Inquieta, perguntou:
- Que foi, Duda? Estou bem sim. Que hora o Fernando vem te buscar?
Um gato miou alto lá fora, assustando as duas. Não era um miado, era quase um lamento, um grito, um agouro. Logo em seguida, outro gato respondeu do mesmo jeito. As amigas sorriram uma para a outra: depois de tanto tempo naquele lugar, ainda se assustavam com a ópera felina, como chamavam.
- Ele vem me buscar às onze. Falta uma meia hora ainda – Ajeitou a alça da blusa e tirou uma mecha de cabelo dos olhos. Sabia mesmo ser bonita. – Estou preocupada com você. – Esperou um momento e acrescentou, o olhar maquiado perfurando os olhos da amiga – Muito preocupada. Você não come direito, Mália. Você não sai mais, só para ir à faculdade, e ainda assim vejo sua falta de vontade. E você acha que não sei que você chora todas as noites? Esqueceu que dormimos juntas na mesma cama? O que aconteceu? É o negócio dos seus pais, não é?
Amália desviou o olhar, sentindo os olhos encherem de lágrimas. Ficou com raiva da preocupação da amiga. Ela nunca entenderia. Respirou fundo, controlando a voz.
- Duda… Não tem nada demais acontecendo. É uma fase só. Está tudo bem. Não precisa se preocupar.
- Se você ao menos se abrisse comigo, poderia ajudar! Você sabe.
As duas voltaram a se olhar. Amália se viu refletida nos olhos escuros de Eduarda. Mais escuros que os seus, quase pretos. A tensão era quase palpável, dominava todo o pequeno ambiente, abafando até mesmo o pequeno aparelho de som, que repetia o mesmo CD de punk há muitas horas.
- Outro dia, tá bem? Agora você precisa terminar de se arrumar.
- Podemos fazer isso já. Não me importo de ficar em casa hoje.
- Mas o Fernando vem te buscar. Pode ir, não é nada que não possa ser contado depois.
- Está bem. Mas me prometa falar qual é o problema, está bem?
- Sim.
- Mesmo que não haja nada a ser feito para resolver.
- Sim, está bem. Pode ir, estou bem.
Eduarda lançou um último olhar preocupado e voltou para a penteadeira, espalhando o batom nos lábios. Em seguida deu alguns retoques nos olhos e soltou os cabelos que iam até a cintura, ondulados. Parecia que essa cena se repetia para sempre. A cascata de cabelos escuros deslizando suavemente, brilhantes e saudáveis, como a própria Eduarda. Brilhantes. Então a nuvem de perfume suave, apenas sugerindo algo doce. Amália via toda a cena cheia de encantamento e entorpecida. A cena que parecia se repetir para sempre.
A campainha tocou. Fernando estava adiantado. Eduarda pegou sua bolsa apressada. Parou mais uma vez em frente ao espelho, procurando erros. Antes de sair, abaixou-se e deu um beijo cheio de batom em Amália, que sorriu sem vontade, desejando uma boa noite. Então saiu, fechando a porta atrás de si. As vozes dos casal vazaram por baixo da porta, mas o som do carro saindo deu fim à conversa.
Amália então levantou-se e vestiu-se lentamente, caçando peças de roupas na bagunça generalizada. Aumentou o volume da música interminável. No bolso do seu casaco usual, encontrou um frasco com alguns comprimidos. Engoliu três com a ajuda de um pouco de café frio. Se olhou no espelho da penteadeira, onde Eduarda há pouco se maquiara. Estava ainda mais estranha. Parecia que já tinha morrido. Não havia maquiagem para isso.
Os gatos da rua voltaram com sua ópera. Sorrindo sem alegria, Amália saiu de casa e trancou a porta, deixando as chaves dentro do vaso de orquídeas pendurado acima da porta. Ramones continuavam cantando a toda altura no lado de dentro, mas agora sozinhos. A noite estava mais escura que o normal. Algumas lâmpadas dos postes haviam queimado na véspera e não teria lua essa semana. Estava frio, e mesmo com o ar parado, Amália sentiu calafrios percorrem suas costas. Mas talvez o motivo não fosse a baixa temperatura.
Seguiu, silenciosa, rua abaixo. A apenas alguns quarteirões de sua casa, havia um rio e sua ponte. Não demorou para chegar no ponto mais alto da ponte de arco. A água corria violenta, como se várias músicas estivessem sobrepostas. A ponte em questão não tinha grades a ladeando, ou qualquer tipo de proteção para quem se aventurasse a passar por ela. Estava em reforma há dois ou três anos e a Prefeitura jamais terminava.
Amália sentou-se na beirada, com as pernas balançando livremente em direção ao rio. Sentiu vários respingos de água fria nos sapatos, que logo ficaram encharcados. Não era uma queda muito alta. Não mais que dois metros. O que a mataria mesmo seria o rio, suas pedras e pressa. E sua profundeza.
Agora era mais fácil pular.
Maquiagem
22/02/2012 por Helô




Porque alguns problemas não nasceram para serem resolvidos…
Me doeu esse conto, Helô!