Beijo seu rosto, e sei que posso fazê-lo por anos a fio sem você desconfiar de minha repulsa. Talvez você saiba que cada vez que sorrimos juntos, juramos assassinato mútuo.
Hoje você estava tão adorável, com seus olhos azuis enormes e brilhantes e superestimados. Só saíram palavras gentis de sua boca, como se quisesse mostrar que é melhor que minha ironia. Estou disposto, quando quiser, a mostrar-lhe como tudo o você fala apodrece em cinco minutos, sendo tão inútil para o mundo quanto sua inteligência, se é que há alguma.
De fato, você era a mulher mais linda do recinto, especialmente enquanto jogava esses seus cabelos de cor indefinida, maravilhosamente lisos – não é isso que suas amigas dizem enquanto se contorcem de inveja? Me pergunto se você tem amigas mesmo. Talvez tenha, afinal, é tão doce enquanto observa o sofrimento silencioso de todos ao seu redor, fingindo se importar e demonstrando essa sua vontade interminável de acabar com toda a tristeza do mundo.
Mas, minha amiga! Sabemos bem que quem a conhece intimamente a ama ainda mais. Sei muito bem como é fácil também, enganar os mais próximos, é isto que os rumores dizem que faço. Que podemos fazer? Desdenhar de sua sabedoria milenarmente construída sobre frases exaustivamente repetidas é um crime. Bom senso é seu nome do meio, não importa a circunstância, não importam os resultados que somente os tolos que a adoram não vêem.
Nos amamos mesmo assim, e você não poderia ser mais perfeita, querida e amiga.
E não é por menos: sei ser pior do que você jamais conseguiu ser, e como você disse, apenas a desprezo por inveja e mágoa.
Deixemos assim parecer.
amável Jano
24/01/2012 por Helô



