
O homem andava muito despreocupado e sonhador pelas ruas. Não precisava que conhecessem sua história ou que o amassem. Sabia amar a vida, ou ser indiferente à ela. E assim, andava distraído e sonhador pelas ruas.
Passava por mil templos e pregadores, sempre ignorante das verdades e maldições que o atingiriam no eterno. Se eram barulhos ou silêncio, disso pouco sabia. Disso, sabia que era homem, que tinha seu trabalho, o alimento de cada dia e das roupas que o cobriam.
Inconformados com a serenidade indiferente do homem, todo tipo de pessoa o tentou convencer de que o mundo é mais do que o mundo, e as coisas não são e são muito o que parecem. O martelavam todos os dias e em todos os lugares com tanta sabedoria e estupidez, que homem começou a pensar se seus sonhos eram mesmo apenas sonhos.
Foi repentinamente estranho ver que seus sonhos não eram a realidade. Teve de se acostumar a acordar todos os dias e se perguntar se estava mesmo acordado, no mundo tão real e tão acusativo. Se o que acontecera à noite era aceitável pelas verdades ditas, e se não, se era sonho ou realidade, pois era difícil de passar de um mundo ao outro.
Passou a supor que seus sonhos eram verdade, em um mundo paralelo, como haviam dito os outros, existem dois ou mais mundos, e todos reais, e um muito melhor que o outro. E assim soube que seus sonhos eram acontecimentos de fato.
Assim, trazia relatórios desse mundo ideal todos os dias para quem pudesse e se interessasse.
Não demorou a ser identificado como um mensageiro, profeta, santo! Em todos os lugares em que caminhou foi venerado e procurado.
Por várias semanas teve tempo de deixar seu emprego, sua casa, roupas e comida. Seu emprego era sonhar, sua casa era templo mais generoso e roupas e comida eram o que lhe davam. Em sua testa, tatuara com a própria mão um terceiro olho dentro de um triângulo, instruído por mestres e místicos, de forma a abrir sua visão para os sonhos.
Muitas pessoas o pagavam muito dinheiro pelos seus sonhos e sabedoria. Não fosse seu desapego, seria rico. Sem ambição, porém, dispensava todo o lucro para o templo que o acolhia à ocasião.
Quando deixou de saber qual mundo era o que estava acordado em corpo, sua queda se iniciou. Agindo como se estivesse em sonho, disse atrocidades em plenos pulmões, entoava canções sem sentido, pulava períodos inteiros de tempo e pouco se importava com o decoro vigente. Aos olhos da sociedade que o cercava, a loucura o acometera.
Tão logo conquistou a fama, a perdeu e não demorou para ser posto na rua, para vagar e se elucidar.
Sem trabalho, roupas, comida e sanidade, vagou por todas as ruas. Pediu e pediu. Foi preso inúmeras vezes. Não sabia o que lhe acontecera, e se perguntava se não iria logo acordar.
E a última vez que foi visto, sentava-se no banco de concreto, trajando-se como uma criança. Devorava um pedaço de bolo como se o salvasse de toda a desnutrição e doença que o dominava. A comida parecia crescer em sua mão, não importava o quando mordesse, até que acabou, repentinamente. Sua tatuagem ainda estava exposta em sua testa, e via-se logo: gotas de sonhos brotavam dela em suor.



