
O dia estava insolitamente bicolor. Era tudo branco e preto. Mesmo os sons da rua pareciam tímidos. Nem os passarinhos cantavam. Guilherme não conseguia parar de se perguntar se não estava preso em algum filme mudo de Chaplin ou coisa parecida. Parado no ponto de ônibus, sentia o mundo girar ao seu redor. Um caleidoscópio preto e branco com cheiro de terra molhada.
Talvez fosse o sono atrasado que o fizesse duvidar da certeza clara e concreta que era os olhos da moça ao seu lado.
Precisou olhar no mínimo cinco ou seis vezes.
Bem, um olho era castanho claro. Gentil, doce, lembrava nozes de natal.
O outro era azul. Azul céu, desses azuis incontestáveis. É azul e ponto, muito bonito o seu olho azul.
E o mundo parecia girar ainda mais.
Afinal, perdera uma lente? Não parecia o caso. Eram naturais, Guilherme podia ver isso. Naturais. A moça tinha uma dessas alterações genéticas e tudo mais. Provavelmente sofreu na escola, o que explica a atitude reservada. Embora estivessem em um ponto de ônibus, não em um bar com bebida grátis. Talvez fosse o sono atrasado.
Guilherme a olhou mais uma sétima ou oitava vez. Os olhos. Nem sabia se era o esquerdo ou direito que era castanho ou azul. Ela parecia ser bonita. Tinha algo laranja. A cor do cabelo? Quem liga para cor de cabelo quando os olhos são tão caleidoscópicos?
—
Parecia que a chuva iria ceder, e mais duas cores foram acrescentadas ao cinema mudo. Um verde primaveril despontava de todas as partes, e aqui e ali surgiam manchas aguadas de azul no céu.
O banco de Guilherme estava completamente reclinado. A viagem era relativamente curta, mas iria aproveitar de cada pequeno conforto e tempo para dormir. Voltaria logo para casa, mas antes viajaria muito.
Na janela milhares de plantas e árvores cobriam a serra grande e eterna. Na verdade, tudo parecia um grande brócolis. Sempre pensava em brócolis.
Fechou os olhos, versões escuras da paisagem continuaram a passar no verso das pálpebras.
Antes de dormir, um olho castanho piscou para ele. E o par azul sorriu de canto.
—
A vida se passa em um ponto de ônibus, pensava Guilherme insistentemente. E nem sempre há coisas legais em pontos de ônibus. Apenas gente entediada, cansada.
Vinte minutos depois, estava no último banco, confortavelmente enroscado em seus fones de ouvido. Iria para casa.
Mais uma vez, estava na serra eternamente coberta de brócolis. E para sua sorte, o sol se punha. Os raios escapavam entre as saliências das rochas descompostos em duas cores. Vermelho e laranja. De repente, tudo estava banhado de fogo, o ônibus contornava a estrada, jogando os passageiros de um lado para o outro. Um caleidoscópio gigante. Em chamas.
E quando a viagem acabou, Guilherme se adiantou para frente cedo demais e acabou esperando sentado. Ao seu lado, uma moça de saia laranja também esperava. E dessa vez ele olhou três vezes até entender que eram os mesmo olhos díspares de mais cedo, no filme mudo. Ela, por sua vez, o viu e teve de rever, lembrando do rosto e das roupas.
Sorriram juntos, quase rindo da coincidência.
E ela era realmente linda.
O olho direito castanho claro. O esquerdo azul.
Se girasse seria um caleidoscópio.
Desceram e foram cada um para seu caminho, a nunca mais se verem.
E para Guilherme, os cabelos dela eram vermelhos e laranja.
A moça toda cores.



