Posts de Novembro, 2009

coisas que não deveriam rimar

29/11/2009

retor(na o)no(ivo)
em t(ã)o(ado)rno
(re)entorna.
en(quanto)tr(ag)o.

vol(atil)ta(lvez)
recol(hei)ta
revol(lução)ta(rdia)

mort(um)e
so(-ar)rte
po(b)r(e)te(rra)
(tão)forte

26/11/2009

O que ela faz ali, correndo na areia, negligenciando o mar e sendo tirana com seus próprios pulmões e corpo? No que ela pensa, enquanto encara o longo caminho da praia, enquanto ignora os comerciantes, os primeiros passantes ali na orla? Todos também querem saber o por quê.
Teria ela percebido estar apenas de pijamas, aliás, pijamas patéticos e velhos. Que está descalça e descabelada, desvairada.
Às vezes fecha os olhos. Os olhos escuros e úmidos, o olhar de desalento, alegria reprimida e inteligência. Assim, tudo junto mesmo. Ela já viu muita coisa, e aperta as pálpebras violentamente para não ver muito mais, para rever outras. Uma hora ela percebe que está amanhecendo, que o sol já manchou o mar de luz, que tudo muda ao seu redor. Será que a exaustão já chegou dominadora em seu corpo? E o que foi feita dela? Engolida pelas trevas vermelhas, pela raiva da menina, tão pequena e frágil na praia brava.
No que ela estava pensando? No que ela tanto pensa?

O que ela faz aqui, que não faz lá?

22-11

22/11/2009

Qual será a música
que tocou nesse dia?
Qual será a música
da nossa vida?

Será um ritmo lento,
ou alguma coisa rápida?
Será o sussurro do vento,
ou uma nota drástica?

É a inspiração
do seu coração,
que é acelerado
e dilacerado?

Qual é o tom do seu sabor?
As notas de ardor,
e o som da dor?
Qual é a música do amor?

outra carta

22/11/2009

Querido,

Espero que você esteja bem. Espero que tenha aprendido a amar o sol tanto quanto eu, que valorize mais quem o ama. Que tenha se livrado de seus fantasmas e demônios, isso ainda não consegui. A cada dia mais me vejo afundar, lentamente, com direito à ópera ao fundo. Sou cada vez mais engolida, tragada a um poço sem fundo, com a água sempre pela cintura, parece que vai subir a qualquer hora, eu sinto subir, mas nada muda, e o poço apenas fica mais e mais fundo.
Eu sei, sou dramática demais. Mas é essa a sensação, meu bem. Você deve conhecê-la bem, eu sei. Mas, veja bem, querido, isso é novo para mim. Estou contando isso para você, porque você sabe de tudo, você que me ensinou a chegar ao poço, a tirar a água dele, e você me empurrou da beira. Você não me ensinou a escalar as paredes lisas, a gritar por socorro, e eu ainda não aprendi a fazer isso.
Espero que você tenha conhecido alguém. Uma pessoa bacana, bonita e gentil, como você. Alguém que lhe ensine a amar mesmo, a se apaixonar e a se entregar. Você merece. Já eu, me pediu notícias, então lhe passo. Estou vagueando por relações vazias, por pessoas fartas e palavras díficeis. Sou uma intrusa, uma completa estranha. Meus amigos, ou o que restou deles, se casaram, arrumaram uma vida, são felizes. E, honestamente, não quero contaminar tamanha felicidade e amor com minha tristeza e amargura latentes. Os outros, se perderam, agora todos tem uma vida, tem algo para pensar todas as manhãs, coisas alegres. Não me isolei completamente ainda por egoísmo, sei que não vou conseguir segurar as pontas sozinha.
Aguentávamos tudo muito bem, juntos. Eram tempos díficeis, admito, mas conseguimos superar. Uma pena não termos nos recuperado totalmente a tempo.
Meu bem, ainda estou confusa, como pode ver. O que aconteceu mesmo para nos separarmos tão brutalmente? De onde veio toda essa tristeza, toda essa dor e angústia? É tudo muito fácil, muito simples. As coisas são assim. Sabemos como ninguém que somos certos, que unidos juntos
Não estou pedindo nada, não estou me fazendo de vítima, nem dramatizando para o sensibilizar. Você me pediu notícias as vida, estou mandando. Nosso momento já passou, por sorte. Meu único objetivo é descobrir a saída do poço, ou aprender a enxergar no escuro, a nadar quem sabe.
Espero que você esteja bem, querido.

Sua, etc.

e o sonho

19/11/2009

que acabou.
ele esgotou,
se matou.

dele sobrou:
livros roídos,
remédios moídos,
sapatos puidos

todos fodidos.

o sonho,
que durou
mas abandonou.