E esse sou eu, abandonando meus sonhos. Acabei de sair do prédo cinza. Lá haviam homens e mulheres quietos. Haviam máquinas barulhentas. Amanhã voltarei lá, e depois e depois e depois.
Provavelmente passarei toda a minha existência frequentando o prédio cinza, algumas vezes aos fins de semana e de madrugada. Ou melhor, frequentarei até minhas costas quebrarem, meus braços caírem e meu rosto enrugar. Então me levarão para outro prédio cinza abarrotado, me entregarão requerimentos, e passarei a velhice pobre visitando bancos cheios de gente de olhos cansados e muita ira.
Bom, talvez eu tenha um gato. Talvez eu tenha uma mulher que me arrume a cama, cozinhe e me ame. Talvez eu tenha a mulher errada, e sonhe por toda a vida com a menina dos olhos castanhos. Mas não posso sonhar, abandonei essa hábito.
Mas esse, agora, sou eu abandonando minhas ilusões. Descobri que o homem de terno preto e cara fechada não gosta de mim.
Descobri também que estão informatizando tudo, e que logo nos substituitão por máquinas. Mas que diferença fará? Nenhuma.
Estou chocado, no prédio cinza corre o boato que o prédio marrom irá demitir a todos os funcionários humanos. Que sorte eles têm!
E esse sou eu, neste momento, desistindo da realidade. Não tenho sentimentos há muito. Não me importo muito se o prédio verde contratou pessoas. O prédio cinza é o mesmo.
Também me vejo o mesmo no espelho. Talvez um pouco mais gordo, comparei-me com algumas fotos antigas, que depois joguei fora. Bom, e também aparecem alguns fios brancos, logo meu cabelo ficará tão cinza quanto meu apartamento que quitei ontem mesmo.
E esse sou eu, desistindo mesmo da loucura. Deixei o prédio cinza, comprei máquinas com a miséria suada e feudal que me rendia. Nada mais preciso. Deixei tudo.
As pessoas não se vêem mais. Não há realidade. Ao menos é o que me parece, não tenho visto muitas pessoas.
Acho que irei morrer. Me encontrarão três semanas depois e dirão apenas: “é um morto, oras!”. Irei passar o tempo que puder na rua, mas não farei barulho. Há anos não uso da voz, sou silencioso.
Esse sou eu sendo comido por esses vermes nojentos na sarjeta. Abandonei meus sonhos, ilusões, realidade e loucura. E fui feliz na morte.