18 de abril
Querida Laurena,
Agora podemos nos corresponder melhor, já que finalmente cessaram a interceptação das missivas. Um verdadeiro desrespeito à privacidade, devo dizer. Mas enfim, a escrevo não só para saber das notícias do meu amado interior, mas para contar os últimos acontecimentos fatigantes e fatídicos da capital. Querida, tenho certeza que se recorda de todo aquele estresse por causa de um noivo estranho, heranças misteriosas e trapaças. Pois então, mesmo depois de desfazer o noivado, renegar minha suposta família e denunciar as trapaças, não consegui me livrar dessa trama. Isso se deve à insistência irritante de Douglas Bells para me encontrar. Amiga minha, você não tem idéia da perseguição que foi! Mesmo com minhas recusas para vê-lo, o pobre continuou obstinado. Várias vezes foi me visitar em casa, mas eu sempre fingia não estar ou fugia nos horários marcados. Realmente, eu não o queria ver. Ele e sua família me aborreceram demais, e eu prefiria ficar sem contato algum, você entende, viu meu estado no último mês. No máximo respondia declinando convites em cartas. Mas, ah! não sei como, quando ou quanto dinheiro foi envolvido, mas sei que ele conseguiu descobrir que eu iria pegar um de meus trens para o litoral e passa lá o fim de semana prolongado, sozinha, claro. Então, o próprio Douglas arrumou suas malas e conseguiu embarcar no mesmo trem que eu, um assento à frente! Você não tem idéia de como fiquei chocada, afinal, o que ele queria com tudo isso? Durante toda a viagem, ele se limitou a apenas me olhar. Eu temia a hora em que ele iria tentar se comunicar comigo, não sei se seria exatamente educada, visto meu desprezo e ódio em relação ao próprio; por isso prefiro o silêncio. Mas o fato é que ele não chegou a falar comigo no trem, nem depois. Ele simplesmente esperou eu ter me instalado na cidade, feito as comprar básicas e ir à praia caminhar. Juro, do nada ele apareceu na minha frente e passou a caminhar comigo. De inicio, falou sobre o tempo, da viagem, do mar, coisas amenas, agradáveis. Se for uma estratégia, funcionou. Consegui relaxar um pouco e me dispor a conversar mais. E assim foi, falamos apenas disso. No outro dia, mesmo horário ele veio conversar novamente, me encontrou de alguma forma do outro lado da cidade. Então, depois de comentar a última crise política e sobre a literatura nacional, tocou no assunto da herança objetivamente. É o seguinte: eu receberia uma espécie de dote, de valor altissimo caso de casasse com ele. Com minha recusa, nada mais me sobra além de papéis velhos. Porém, o senhor Douglas estava disposto a fazer valer um termo em que se preferisse, o noivo poderia liberar essa quantia para a herdeira, sem o casamento, assegurado apenas pela palavra dele de que iria garantir que ela se case. Ou melhor, que eu me case, com qualquer homem. Caso eu morra solteira, ele teria de retribuir. De muito boa vontade, ele me explicou toas as burocracias, seu interesse em meu bem-estar futuro e indignação com a atitude desprezível da minha família e até mesmo da dele. Não posso negar que me deixei conquistar por sua gentileza, nobreza e preocupação. Agradeci a atenção, e até mesmo por me perseguir e insistir em abordar o assunto, expliquei minha decisão de não me casar, e que em breve estaria formada jornalista, e na capital há várias oportunidades, mesmo para mulheres. Que não estava interessada, mesmo que não tivesse alguma expectativa boa para o futuro, pois esse dinheiro é sujo. Ele então, reafirmou sua proposta e expressou todos os sentimentos fraternos que o levaram a viajar para o litoral somente para falar comigo. Que, mesmo não me conhecendo direito, me tinha como irmã. Então, beijou minha mão e se despediu, disse que nunca mais o veria, como eu preferia. Preferia, amiga. Como posso continuar a odiá-lo? Ele provou seu valor, e me mostrou o quão orgulhosa, preconceituosa e facilmente levada pelas emoções eu sou. Não pude deixar de sentir profunda vergonha e de ficar algumas horas deprimida por isso tudo. Afirmo-lhe, sinceramente, gostaria muito de estar agora, nesse instante, conversando com ele e ouvindo sua voz e assuntos agradáveis. Porém, eu assim quis, e estou sozinha, nesse dia melancólio e cinzento que amanheceu. Ah, perdoe-me, além de me demorar no assunto, comecei a filosofar em vão. Laurena, isso é tudo que tenho a contar. Essa história infeliz. Por favor, me mande noticias de sua casa, de seus pais, os acontecimentos triviais e me fale sobre o clima. Nada poderia me interessar e deleitar mais que sua narrativa. Desejo muito esquecer de vez dessa história e do belo rosto de Douglas Bells.
De sua amiga louca e saudosa,
Louise.