
Estava a tomar leite de soja, apenas a soja, apesar de eu preferir com frutas. Por uma coincidência, que penso não ser tão coincidência assim, é da mesma marca que um de meus amigos, o mais querido, toma. Observando melhor o conteúdo dentro do copo, vi as semelhanças não eram apenas de produto e marca. A cor da bebiba, um branco parado entre creme e gelo, é tão igual a cor da pele dele! O cheiro, lembrei porque o cheiro doce do leite de soja me atrai. Porque, agora que estava a descobrir os motivos de meu amor estranho à bebida, vi que ate mesmo o cheiro se assemelha ao cheiro dele. Evidentemente, ele toma aquilo há tanto tempo que provavelmente adquiriu algumas características do produto, ou talvez ame a bebida tanto que quis ser igual, não sei, sabe.
Mas devo dizer. Apesar da aparência boa, do cheiro delicioso e da marca ser da melhor, atestando que apenas fará bem à saude, oh, preciso deixar claro que não é fácil de engolir. O gosto não deixa a desejar, inicialmente. Após engolido, surge um sabor diferente, algo bem enjoativo, talvez amargo, no fundo da língua. Então, não pude deixar de compará-lo, mais uma vez. Ele é saboroso, tem ótimo cheiro e aparencia. Porém, dificil de engolir, e após feito é preciso suportar todo o gosto ruim que deixa na boca: você sofre, se arrepia e promete nunca mais tomar daquilo. Porém, todos os aspectos físicos são desejáveis, e novamente você se arrisca a tomar outro gole dele. Colocando mais quantidades dele para dentro de você. Até que sua pele empalidece, seu cheiro fica doce e seu gosto tão contrastante quanto o dele.
Eu bebi um pouco mais da metade do copo, corajosamente, até que percebi o que aquilo tudo significava para mim. Descobri que eu só tomei gosto por leite de soja porque ele precisa disso para se manter. Descobri que bebia quantidades absurdas sem me dar conta porque eu achava que ao colocar montes da bebida para dentro de meu organismo, alimentaria a parte dele qua ficou em mim, dentro do meu peito. Assim, nunca faltaria alimento para ele continuar amargando o espaço vago entre meus pulmões, também afetados.
Então, notei também que sempre seria assim. Com qualquer pessoa. Tomaremos coisas que não nos apraz para manter alimentados pedaços medíocres das pessoas que nunca nos amarão tanto quanto a amamos. Suportaremos o gosto ruim, a má sensação como prova de amor. E toda vez prometeremos não virar outra dose ameaçadora, mas sempre beberemos o copo inteiro, ou até achar que estamos saciados.
Porque o ser humano é imbecil o suficiente para precisar de ter por perto alguma lembrança, algo semelhante que nos faça renovar os votos e que alimente toda a obssessão, paixão, afeto ou sabe-se lá do que chamam isto. Por isso que bebo cada vez mais leite de soja, com a desculpa de que preciso repor proteínas, devido minha dieta vegetariana. Nem preciso disso, preciso de água. Transparente, inodora e insipida.



