
Eu tinha certeza que depois que aquela onda chegasse à areia, ele iria reaparecer. Mas passou-se uma, duas, três, quatro ondas e nada dele. Nem ele, nem aquele maldito pedaço de plástico colorido reapareceu. Enquanto estava sentanda na areia branca, sentindo toda a tensão do mundo na minha cabeça e membros, vi o quanto estava impotente diante daquela selvageria marítima toda. O barulho das pessoas correndo ao meu redor, dos gritos e preces era infimo diante da fúria do mar, que berrava em meus ouvidos como um hard rock pesadíssimo e sem melodia. Enquanto estava estagnada e impotente observando a cena toda se desenrolar, um helicóptero apareceu do nada no céu, agora encoberto por pesadas nuvens arroxeadas. Quando vi que os homens de vermelho voltavam para a praia com ar de derrota, conversando pesadoramente entre si, foi desesperador. Comecei a chorar convulsivamente, senti o gosto excepcionalmente salgado das lágrimas, que percorriam meu rosto recém-banhado.
Segundos que pareciam mais horas passaram-se, e tudo parecia em camera lenta: inclusive a cabeça vindo a tona do mar, no meio de uma onda distraída e sumindo logo em seguida. Ninguém mais pareceu ver aquilo, ninguém se importou, todos lamentavam o desaparecimento do surfista inexperiente no mar. Em questão de décimos, compreendi que aquela cabeça pertencia a ele, e que ele ainda estava vivo, que dependia de mim. Forcei-me a sair do topor pelo choque, levantei-me da mesma posição de uma hora seguida e corri para a água. Minhas pernas doíam, por estar na mesma posição por tanto tempo e meus joelhos protestaram por causa do esforço e da chuva gelada, que começava a atingir meu reumatismo.
Corri, desesperada. Com medo, muito medo. Medo de não conseguir, de chegar tarde demais, de acabar sendo engolida pelo mar junto com ele e as formas de vida ameaçadas pela tempestade que rapidamente se instalara. O helicoptero sumira a sabe-se lá quanto tempo do céu, e olhei para trás em última esperança de alguém mais te-lo visto, mas a praia estava vazia. Em um lugar bem longe do meu alcance, no meio do mar cinza revoltado, avistei um braço agitado: esperanças renovadas, continuei minha corrida alucinada para a salvação do desconhecido. Pulei corajosamente na água fria e violenta. Dei braçadas, obriguei minhas pernas agora dormentes a se movimentar, como nas aulas de natação que tomei, alguns anos atrás. Engoli alguns litros, mas não parecia me fazer mal. Fui surpreendida com uma onda, que me arrastou vários metros. Soltei o corpo de deixei a onda me levar, até perder parte da força, então voltei a me debater. Minha cabeça girava, meus olhos ardiam na busca do surfista, que agora poderia estar morto, e provavelmente me levando para o mesmo caminho.
Ah! Lá estava! O rastro, a prancha colorida quebrada. Ou parte dela. Seguia-se por vários metros, vários pedaços. A chuva me impedia de ver muito, e me assustei pelo vento não ter dispersado tudo ainda, em conjunto com o mar revolto. Evidentemente, estávamos em algum tipo de corrente marinha. Quase estagnei novamente: corrente marinha… sim, minha morte já estava traçada. A tempestade continuava a castigar qualquer coisa abaixo das nuvens, e eu e uma pessoa que nem sequer conhecia estávamos no único lugar no qual nunca deveriamos chegar perto. Nadei, ou melhor, lutei contra tudo para chegar no primeiro pedaço, depois no segundo, e assim sucessivamente. Depois de tanto tempo (ou apenas alguns minutos?) no meio da fúria natural, quase que eu fazia parte dela, me adaptei rapidamente. Logo, podia prever os movimentos do mar, a direção que o vento tomaria e a intensidade da chuva, que começava a diminuir gradualmente. Não me lembro, mas tudo parecia cinza demais. Meu joelhos violentados, desejavam ceder, ansiavam por descanso. Meus braços estava fracos e minha cabeça continuava a girar. Alcancei o último pedaço, e nada. A desesperança me atingiu mais forte que os raios que quebravam as pedras da baía. Insisti, mergulhei mais algumas vezes, vasculhei meu campo de visão: NADA.
Algo gritou dentro de mim, eu devia voltar logo para a praia. Como uma criança obediente comecei a lutar para voltar, sair daquela corrente que me arrastava para as rochas altas do recife. Mas continuavam a gritar dentro de mim, lá no fundo. Então percebi que não era dentro de mim que gritava, e sim fora de mim. Olhei para onde supostamente deveria vir esses chamados urgentes.
Avistei o desconhecido. Seus cabelos negros chamavam minha atenção, a pele bronzeada sinalizava que eu finalmente o encontrara. Não boiava, não estava desesperado, não tentava sobreviver, apenas resistia. Acenei para que ele soubesse que alguém mais estava ali, que continuasse vivo, que esperasse que logo eu chegaria, que eu tive a coragem de tentar o resgate. Juro que vi um sorriso relancear seu rosto, agora mais visivel. Assim que me aproximei (o que não foi dificil, já que estávamos na mesma corrente e ambos estavam intrincados na tempestade) o suficiente para tocá-lo, vi que estava agarrado a um pedaço da prancha dilacerada. Tentei gritar ou gesticular para nos unirmos e voltarmos à praia. Ele parecia não ouvir, e apenas sorriu, feliz por alguém tê-lo encontrado. Mantemo-nos perto por todo o tempo, já que não era possível nadarmos de volta. Esperamos, pacientemente a fúria cessar.
De mãos dadas, chegamos à terra firme. Era muito estranho, depois de tanto tempo na água, sem algo no qual se firmar. Exaustos, nos derrubamos na areia fria e macia. O sol apareceu, como um pai protetor e quente que vem dizer que estava tudo bem. Não havia espaço para sono ou cansaço, apenas uma terrível apatia e violentos espasmos por todo o corpo. O choque por estarmos vivos nos limitou a apenas nos olharmos. Eu, admirava a pele bronzeada, os cabelos negros grudados, os olhos escuros profundos e a boca de meu querido desconhecido que antes havia se contraído em sorriso ao me ver no meio do caos. Ele, me olhava como um ser de outro mundo, de um lugar que provavelmente os deuses residem e cheio de gratidão por tê-o salvado, por tê-lo dado esperança e força para continuar a movimentar os praços e pernas de modo a sobreviver. Os pássaros passaram rente aos nossos corpos, que agora tremiam pelo frio, apesar do sol. Tínhamos que sair dali, procurar um lugar melhor, ajuda para a recuperação. Porém, não haviam forças.
E continuamos a nos observar silenciosamente até que o crepúsculo veio, e na noite ainda podíamos nos ver, eu conseguia distinguir os traços harmoniosos. E, iluminados pela lua cheia alta, o sono veio. Veio arrebatador, não pude, não tentei resistir. Juntos, sintonizados, fechamos os olhos nos entregando ao descanso. E juro, por toda aquela santa areia acolhedora, por todas as ondas que enfrentei, que vi um sorriso perpassar o rosto salgado daquele rapaz, e era um sorriso mais quente que o sol, mais claro que a lua que brilhava com força no céu escuro, tão escuro e profundo quanto seus olhos.