Então… Ela estava com outro. Já deveria esperar. Porque a surpresa, se também continuara sua vida? Ela não se importava mais, era o que sabia. Aquele abraço na frente dele, em seguida a aliança no dedo. Não sabia o que fazer. Quando se encontraram mais cedo naquela mesma noite, sentira uma alegria imensa ao vê-la, chegou a cantar, dançar e sorrir, fazendo-a sorrir e mostrar os dentes brancos e perfeitos, ao contrário dos seus. Não conseguira dizer seu nome: “Ana Paula”. Nunca conseguira. Era algo aquém de suas capacidades, pois tentava evitar esse “nada” que sentia com ela. Por ela. Mas era isso. Foi burro o suficiente para se deixar afetar, simpatizar por uma carta, por uma garota tão… Estranha, diferente. Não o era o ‘seu’ tipo. Mal tinham afinidades. Ela não era engraçada, era desastrada, falava por vezes baixo demais, não parecia se importar muito com a aparência, escutava músicas estranhas e falava de coisas esquisitas. Mas ultimamente estava diferente.
Afinal, encontrou alguém que a queria. Alguém que não a magoaria. Alguém que provavelmente conseguia falar seu nome sem se sentir idiota por isso. Ele talvez segurasse suas mãos quando estivessem geladas como o habitual. Talvez, Ana… Paula assopre as mãos quando muito próxima dele, como sempre fazia com Fernando.
Fato: estava demorando demais para Fernando também achar alguém que seja capaz de segurar mãos sem parecer ter subido a temperatura bem uns 20º.
Não poderia ser sinal de paixão. Não era. Era aquele “nada” que tinham. Uma relação confusa, sem amor, sem paixão. Pois então, pareciam dois desconhecidos obrigados a compartilhar da mesma sala fechada por 5 meses. Ou mais. Sabia que amor traz paz. Quando se ama uma pessoa, sente-se paz com ela. Não deve se inquietar, ficar nervoso, mudar o humor ou algo do tipo. Ama-se uma pessoa quando se vê que ela é uma das poucas que lhe tranqüiliza, acalma, e conforta, mesmo que ela não saiba como consolar. Isso é amor.
Convencia-se o tempo todo disso, ou tentava. Como, afinal, fora parar nessa situação? Estava preso a alguém que ele próprio rejeitava, e agora, nem isso faria mais, pois não lhe pertencia mais nada.
Droga, já refletira sobre tudo isso. Tudo. Várias vezes. E todas as vezes chegava a mesma conclusão: maldita dependência. Precisava também de alguém para segurar as mãos e sorrir-lhe sempre. Alguém para lhe abraçar quando sentisse frio, e blá blá blá.
Conseguiria estar com outra pessoa, como ela, e não se importar? Não pensar nessa coisa platônica? Ah, ela se importava, sabia disso! Aqueles olhos castanhos flamejantes não mentiam. Ou era o que se enganava o tempo todo. Via o que queria ver.
Então, se não tinha algo. Se eram como dois desconhecidos que dividiram uma sala fechada por cinco meses, por que Fernando se machucava tanto com o fato de outro poder tocar os lábio de Ana Paula. E principalmente: porque não tentava sequer demonstrar tudo aquilo que sentia, ou deixava de sentir, como assim pensava que fosse.
Sentiu-se triste por isso. Sentiu-se vazio por isso. Mas o que poderia fazer? Provavelmente mais estrago do que já fizera.
Posts de Abril, 2009
Ciúmes
28/04/200926/04/2009
Sinto uma vontade. Uma vontade enorme de escrever. De inventar algo. De contar algo. De descrever algum sentimento, algum momento único.
Mas isso já não existe.
Tenho escrito muito oralmente.
Perco todos meus textos os recitando para mim mesma.
Ah, aqueles doces olhos cor de palha fresca.
25/04/2009
Ele me olhou com aqueles belos e doces olhos esverdeados. Eram da cor da grama quando cortada cor de palha fresca. Sua pele branca, levemente bronzeada, como o céu quando o sol parece querer nascer. Suas roupas costumam ser claras, a boca é grande, mas os lábios são apenas normais. Nem finos, nem enormes. Mais alto que eu, cabelo da cor da terra marrom.
Ele me lembra uma paisagem. Aquela paisagem que vejo todos os dias da esquina da minha casa, todas as manhãs, a minha preferida.
Ele tem as cores da natureza.
21/04/2009
“Eu tive um sonho, vou te contar…”
Não me atirava do oitavo andar.
Para não esquecer, pois parece já querer se esvair de minhas memórias.
Sonhei que estava em casa.
E mais um dia amanheceu.
O que não tem
19/04/2009.
Então adentrou ao ônibus uma senhora trajada de jeans. Bermuda, casaco e uma blusa de poliéster, curta. Via-se que usava cinta, nada mais adequado, já que seu corpo claramente não era mais o mesmo da juventude. Era loira e de aparencia frágil, olhos claro e voz aguda e rouca. Sentou-se e logo tirou da bolsa alguns papéis e uma bíblia, e passou a estudar. Mas minha atenção voltou-se a seus pés, calçados com uma sapatilha de plástico, transparente e cheia de glitter, última moda em minha cidade. Simplesmente todas têm. Porque eu não poderia ter uma igual? Afinal, dessa vez me identifiquei de algum modo com a tendência, e parecia ser muito confortável, além de combinar com todas as roupas. Porque não?
Em meu colo, minha irmã de 7 anos pareceu ler meus pensamentos.
- Ai, todo mundo tem aquela sapatilha igual a da mulher, menos eu! – disse frustrada.
Respondi apenas:
- Estava pensando a mesma coisa!
- É… todas as meninas tem, menos eu! Eu quero uma dessa.
- Mas suas sandálias são mais bonitas.
- Mas… é que todas as meninas tem uma daquela, menos eu. Queria uma igual.
- E só porque todo mundo tem você também tem que ter? E se todo mundo usar uma roupa que você não gosta, uma roupa feia, você vai usar essa roupa também só porque todos estão usando?
- Não…
- Então!
- Mas a sapatilha…
- Que que eu disse? Só porque todo mundo usa você também vai usar? E se você não gostar? E se machucar seu pé? Ainda vai usar?
- Claro que não.
- Então! Suas sandálias são mais bonitas.
Com essa sentença, a pequena pareceu enfim conformada. Deitou a cabeça em meu colo e dormiu por toda a viagem. Mas eu não parava de fitar a sapatilha brilhante nos pés da mulher. Porque não poderia ter uma igual?


