Entrou na casa e lá estava ele. Tão belo e branco como ela se lembrava. Sentado na única poltrona da sala, relaxado, com um sorriso estampado – um sorriso que pertencia aos outros, logo atrás dela. Não soube se teve forças ou não para mostrar os dentes, em sua careta habitual. Mas era fato, só tinha olhos para uma pessoa, e não queria, não sabia, pensar e analisar a outro. Era ele ele ele. Pegava-se por várias vezes o fitando com tamanha intensidade, que, se alguém mais reparasse, provavelmente veria as faíscas saltando de seus olhos.
Ela o amava, e muito. Mas, nesse terceiro provável último encontro, a festa era dele. Aquela grande pequena garota era mais um enfeite. Sabia que estava lá pois os amigos dele desconfiaram de sua paixão, e acabaram por simpatizar pela história fracassada. Queriam ver o fim trágico e cheio de lágrimas. Queriam vê-la chorar, coisa que nunca fazia.
Mas aceitava-se mais a suposição de que todos já amaram algum dia, e sabiam como era ficar longe, inevitavelmente.
Talvez ela fizesse bem a ele. E só a própria não sabia disso.
Não havia mais tempo para algo. Isso se esgotara duas semanas antes. E ainda assim, ela insistiu.
Posts de Fevereiro, 2009
28/02/2009
28/02/2009
Alegria imaginária.
Alegria instantânea.
Alegria ilusória.
Alegria intuitiva.
Alegria efêmera.
Alegria esmaecida.
Alegria falsa.
Alegria tímida.
Alegria misteriosa.
Alegria que aparece não se sabe de onde, e lhe avisa de não sei o quê. “Deve sorrir”, ela diz, “já está tudo bem. Tudo em seus lugares, tranquilize-se”. E mesmo não sabendo, aceitando, entendendo o que isso significa, algo dentro de você melhora. Algo já não falta.Alívio.
E então, espera o motivo aparecer.
E ele aparece no outro dia: Tudo está bem.
Presente matinal
27/02/2009Estava atrasada.
Mas enquanto “corria” suas quatro quadras habituais, considerava o fato de, quem sabe, se atrasar o suficiente e ficar para fora. Sempre acabava por se encontrar no lado de fora da vida de muita gente, de ambientes almejados (ao menos por ela), de projetos e festas, por que não poderia, de repente, encontrar-se do lado de fora da escola também?
Assim, poderia dar meia volta e retornar à sua confortável casa, à sua aconchegante cama. Dormir.
Olhou para frente, como se se distraísse. De onde estava, tinha uma ótima vista da pequena cidade interiorana. Podia enxergar os limites, onde começavam os sítios, campos de plantações e de gado. Era possível ver todas as casas do lado oeste e norte. Talvez uma parte da zona sul.
Enfim se distraiu, e passou a apenas andar. Seus pés a levavam pelo caminho conhecido, não precisando parar. Lembrou-se então, com dor, que seu maior muso morava ao lado poente, enquanto ela, ao nascente. Em semelhança, apenas o meio-sol no horizonte – seguido então da noite. E ainda assim, em sentidos opostos.
Balançando a cabeça, desviou os pensamentos proibidos, piegas. Tentou concentrar-se na cidade à frente, ao caminho.
Repentinamente, tudo pareceu nítido demais. Claro, colorido demais.
A costumeira névoa matinal, estranhamente, não estava presente, tornando as casas, a torre da igreja, os prédios, os carros, as árvores, tudo, enfim, que se podia ver dali estava demasiadamente bonito. As nuvens de chuva da madrugada estavam logo acima, deixando visível apenas uma tênue linha azul-gelo de céu. Se olhasse mais acima, veria a continuação desse céu interrompido. O sol nascia às suas costas, refletindo a luz dourada e límpida nas nuvens, que adquiriam tons de cinza misturados a outras cores mais quentes.
Percebeu-se parada, estática, diante da visão atordoadamente bela do local no qual passara os últimos cinco anos de sua vida.
Assustando-se, balançou a cabeça novamente, dessa vez para organizar as idéias, e retomou seu ruma. Verificou o relógio. Não havia se passado dez minutos desde que cruzara o grande e frio portão de sua casa. Não havia mais tempo para retorno. Seguiu em direção a mais um dia ensolarado.

Laranja
25/02/2009
Tarde de quarta-feira e um calor maçante ocupa todo o espaço respirável. Saio andando a esmo pela casa, como se resolvesse para parar meu desespero. Parando na geladeira, penso por alguns segundos e abro a porta – para pensar, como muitos fazem, e refrescar-me um tanto. Então, lá no fundo, no fundo mesmo, encontro uma única laranja. Mas uma laranja realmente laranja. Não amarela, não verde ou qualquer outra cor que laranjas possam ter; mas laranja. Devia estar tão doce! ando-a, contemplo minha descoberta. Ligue os pontos: calor, laranja, varanda, caldo. Pois então. Não foi muito tempo até alcançar a faca e começar a descascar.
Como sempre, cortei primeiro a “tampinha” da laranja e segui em espiral. Lembrei-me então de quando morava na Bahia, e costumava sentar com os vizinhos durante as noites quentes e comer as mais diversas frutas. Uma noite, em especial, estávamos sentados, aproveitando a noite sem nuvens e comendo laranjas. Apenas minha vizinha descascava de um jeito ainda desconhecido por nós, não a contornando a fruta, e sim tirando a casca em tiras verticais (apenas tente imaginar). Então, quando se cansou, pediu à minha mãe para substituí-la na árdua tarefa.
Começou minha mãe a descascar a laranja do jeito que sabíamos, em espirais, desde o topo até o fim, circundando. Então, observando bem, minha vizinha deixa escapar: “que jeito estranho de descascar laranja! Quem faz assim é o pessoal do morro (favela da cidade).”
Respondi: “Lá em São Paulo fazemos assim mesmo. E não são os pobres não, os mais bem-de-vida também.”
Mas a mulher manteve: “Pois aqui quem faz isto são os favelados”.
E este foi meu primeiro registro de relações socioeconômicas. A minha vizinha não descascava a laranja de um jeito, não porque era mais difícil ou estava acostumada ao outro, mas sim porque mais pobres da cidade descascavam daquele jeito.
Tantas questões sociais em uma casca de laranja.
Retiro Espiritual
24/02/2009Dias para pensar na vida.
Refletir sobre tantas outras vindas.
E idas.
Ido embora, para longe
Longe do caos
Distante dos vasos de cristal
Não há tempero, não há sal.
Não há água que unja,
demanda grande.
Fluxo de ideias
Pensamentos perdidos.
Todos nós, um dia
Naquelas pobres aldeias.
Ah, hei de ficar lá.
Mas não conseguiria.
Há pessoas morrendo
E alguém sequer riria disso.
Não poderia.
F a l t a
A R
Vamos ao Retiro Espiritual
Nos curarmos.
Nos sedarmos.
Dopamentemente falando.
E, consequentemente,
Fortalecer os laços
Daquilo tudo, sim
Do que realmente
Importa.


