castanhas stalkers

12/11/2009 por Heloisa

Ela costumava aparecer às vezes somente. Uma ou duas vezes por ano, mas sempre passava nessa rua, desse lado da calçada e com os mesmo cabelos rubros. Eu, esse velho e desgastado simples vendedor de castanhas, a observava.
Até que em uma tarde muito chuvosa de agosto, ela passou, parecia pesada e fatigada. Era anormal isso, uma vez que só visitava a cidade nos verões, e sempre andou com passos leves, algumas vezes cantarolando, rindo se acompanhada e esvoaçante.
Acontece, que ela começou a passar por’aquela rua todos os dias, inclusive alguns fins de semana. E todos os dias, o mesmo ar pesado, o mesmo cansaço, já se via alguma olheiras em seus olhos muito escuros, o mesmo vinco no canto da boca se afundando de desgosto. Sei de tudo isso pois nessa época tinha uma boa visão e prestava muito mais atenção nessas mocinhas. Hoje, sequer enxergo um palmo à frente do nariz sem óculos. Não sei se é culpa da idade ou se não quero mesmo ver.
Então, caro leitor, chegou a primavera. Doce e quente primavera. Ela andava de olhos fechados, abrindo somente para atravessar a perigosa rua. Sentia o vento, a quentura do sol a umidade acumulada. Quiçá o perfume das flores pequenas nos canteiros tímidos. Mas já não se via o ar pesado, nem a tristeza. Estava linda. A mudança foi acontecendo aos poucos. Um dia um pouco de alegria, no outro mais disposição, por fim as olheiras foram sumindo e ela voltou a ser o que era nos verões raros.
Não sabia aonde morava, de suas preferências nem o que sentia. Mas a amava, assim, pura e simplesmente. Era moço, solteiro, sozinho, carente e sonhava em estudar literatura. Não entendia muito de amor, mas sabia que era algo muito sublime, como o que acontecia quando a ruiva passava.
Ela tinha sardas, descobri quando ela passou um pouco mais perto de mim. Nesse dia ela tinha os dois cadarços desamarrados e um livro caindo da bolsa. Tirei força e vergonhas e a chamei. Ei, moça, seus cadarços. E tem também um livro caindo da bolsa. Ela me olhou assustada, os olhos me avaliando (trajes simples, uma enorme cesta de castanhas). Puxou o livro, fechou bem a bolsa, se abaixou e amarrou os cadarços. Me olhou com intensidade e disse um muito obrigada, boa tarde. Não me lembro da voz. Foi abafada por tantas outras, e ouvi tantas mais que me pareceu ser apenas aguda.
Desse dia em diante, ela passou todos os dias perto de mim e me dizia por vezes um oi, um boa tarde, ou apenas um sorriso alegre.
Passou o verão, chegou março. Num dia muito colorido e azul, a avistei ao longe. Cabelos ruivos, pele branca demais e mãos delicadas agarradas às de um rapaz muito alto, de cabelos muito pretos, com a mesma pele e olhos inteligentes dela. Não era irmãos, logo se via. Eram namorados. Ela me disse o costumeiro oi, mas mal me olhou. Estava concentrada demais nele. Isso durou todo o outono.
No auge do inverno chuvoso, ela passou novamente sozinha. A tristeza voltara. A cumprimentei, ela respondeu mas não tirava os olhos vermelhos do chão, mal tinha forças para sorrir. Todos os dias assim. A ver daquele jeito me dilacerava, e passei a gastar algumas noites de estudo a escrever poemas, planejar entregar-lhe, bolar maneiras de chamar sua atenção e animá-la.
Nada disso foi feito, rasguei os versos posteriormente e os joguei no mar.
Foi o pior inverno, para mim, para ela, para as castanhas e para o sol.
Numa manhã fria e chuvosa de agosto, que imagino romanticamente ser a mesma em que ela se mudou para a cidade, a menina ruiva e triste parou na minha frente, forçou um sorriso e me pediu cinco pacotinhos de castanhas, por favor, moço. A olhei tão feliz, tão esperançado, admito. Ela se assustou um pouco, mas isso iluminou seu rosto, de certa forma. Trocamos algumas palavras, ela me contou que fazia um ano que se mudara, e ainda não havia provado as famosas castanhas da região. Elogiei as ditas cujas, passei receitas. Ela disse que iria para São Paulo estudar biologia, lhe disse meus sonhos literários. Ela pareceu muito satisfeita comigo e consigo. A sombra ainda a cercava, apesar de um pouco diminuida.
Depois disso ela e suas sardas e cabelos fogo sumiram. Não sei sequer seu nome, ninguém a conhecia. Imaginei que estaria viajando.
No fim de agosto, vi um cartaz com sua preciosa foto, embaixo anunciada que estava desaparecida há duas semanas. O nome e informações para contato foram depredados por algum moleque. Arranque o papel com a foto do poste. Depois de muito esperar ela passar, saí para a praia, mesmo debaixo da chuva torrencial. Meu expediente acabara, e mesmo com o risco de perder o ônibus e outro dia de aula, caminhei na areia por horas.
Hoje sei que já sabia o que acontecera, mesmo com as tentativas de otimismo.
Essa última parte não é nada romantica, mas acredito que já sabem o final. Isso me deixa mais aliviado, já que é muito dificil recontar (e reviver inevitavelmente).
Caminhei muito, escalei um morro, desci a encosta e caminhei entre as pedras, na esperança de encontrá-la. Queria não ter feito isso, pois e encontrei.
Reconheci pelos cabelos ruivos ao longe. Cheguei mais perto. As rochas haviam formado uma espécie de caverna obscura. Impossível de se encontrar, acredito. Mas encontrei, pois a cabeça saía pelo buraco. Linda, linda até na morte.
Já estava inchando, azulada. Os precisoso cabelos de fogo estavam mais vivos que nunca, porém. Mas, meu Deus, que choque foi.
Comecei a gritar muito, alguma bo’alma chamou os bombeiros. Me tiraram de lá, tiraram o corpo. Saí correndo para casa. Fui a pé. Não quis ficar para ver nada.
Depois disso, sei que envelheci. Meus sonhos de ser alguém foram enterrados com as sardas da menina. Escrevo por diversão. E, você não imagina, mas posso ter inventado toda essa história. É verdade, mas posso ter feito isso.
As castanhas, porém, foram encontradas no bolso dela, já disse? Um conhecido, também vendedor de castanhas, me contou isso. Disseram reconhecer serem as mesmas que vendo aqui, nessa rua empoeirada, cinza e solitária.

filosofemos

09/11/2009 por Heloisa

Amor. É, mais de amor.
Vocês me dizem que só odeia muito quem já muito se amou. Errado, queridos. Errado.
Só termina em ódio a paixão. Ou ainda, o fim do ódio é a paixão. Amor, nada tem a ver com isso. Grandes paixões terminam em ódio. Pequenas em indiferença.

Já amor, “sublime amor” dizem. De sublime nada tem.
Mas o ponto é que: amor não termina. Esse amor verdadeiro que dizemos, todos os amores são verdadeiros. Amor mentiroso não é amor, então não existe.
Amor não termina, de fato. Pode se transformar, pode perder a intensidade. Tudo acaba quando acaba bem.
Daí entra a teoria de que é perfeitamente possível amar a duas pessoas ao mesmo tempo. Outro assunto.

Deixo de sobreaviso: Essas afirmações nada sanas não são desculpa para continuar chorando pelo ex-namorado/a, ter recaídas ou coisa do tipo. Meu único desejo é deixar registrado tal pensamento e, quem sabe, instruir a essas pessoas que mantém um ódio inútil por outrem. Todo ódio e rancor é inútil, mas pleonasmos são legais.

mas voltemos ao amor platônico.

08/11/2009 por Heloisa

L’amour.
Carla Bruni canta isso o tempo todo em seus ouvidos. Eu sei disso porque, bem somente sei. Ela é sempre muito clara, sempre muito transparente. Mesmo que diante de mim se torne turva e fosca. Mas, ela ali está. Sentada debaixo da árvore mais alta que o céu, sobre a grama menos verde que seus olhos. E seus cabelos loiros deixam o sol invejoso.
A amo, preciso mesmo dizer? Qualquer um pode ver, creio. Dá para perceber o quanto fico nervoso e inquieto perto dela, não é? Que não falo muito por medo de errar, que sou cuidadoso. Mas ainda assim, meus amigos me dizem que ela nada sabe.
Por isso tenho pensado muito em me declarar à ela. Porém, me impede essa timidez e o fato de não sermos sequer amigos. Mas ela é linda, é sim. Talvez eu também não saiba como chegar e simplesmente dizer: “Eu a admiro e amo ardentemente, desde a primeira vez que a vi é assim. Me ame também, por favor”. Não sou um Mr. Darcy como nos livros que li para ter assunto com ela.

Ela é linda, linda.

Me impede também, a menina dos cabelos castanhos. Ela me perturba, em amplos sentidos.
Dizem que me ama, talvez tão ardentemente quanto eu amo a mais linda musa. Tenho pensado sobre isso, muito. Demais até, é preocupante. Ela canta sobre ir embora, sobre frustrações, romance e rock. Não a amo, de fato. Além de tudo, é incapaz de acompanhar meus raciocínios. Não é burra, serei bonzinho, é um pouco lerdinha. Mas um dia me disse: “e se essa loira que você tanto gosta, seja igual a mim? E se ela for tão impertencente a você, que você se decepcione a ponto de não querer mais amar?”.
Mas essa menina de cabelos castanhos e olhos escuros é pertencente a mim. Age como se fosse independente, mas é indesejavelmente minha. A loira, não sendo minha é a incógnita que mais quero.
Ela diz que me ajuda, que pode me ajudar. Não quero, não posso torturá-la assim. Mas essa menina vê minha alma, me lê.

Pensando muito bem, essas duas me fazem querer rever meus conceitos de amor.

é raiva

07/11/2009 por Heloisa

E me enerva, me incendeia.
O calor do sol nada tem a ver.
É raiva, fervente.
Fulminante.

Que merda de vida é essa,
que porcaria de cidade é essa,
em que nada funciona
nada tranquiliza.

É raiva, não chegue perto.

no consultório

04/11/2009 por Heloisa

Lembro que uma vez, numa dessas tardes de terapia inútil, depois de me ver chorar em silêncio quase a ponto de desidratar, a psicóloga me perguntou com aquele ar afetado e de pena:
- Então, por que você o ama? Como ele é?
- Ele… Não sei.
E realmente não sabia. Eu o amava, oras. Tinha que apresentar algum motivo, algum motivo apresentável, concreto, real para amar assim. Não sabia dizer quais, se é que havia algum.
Mas ela insistiu:
- Ele é inteligente? Bonito?
- Ah, é muito inteligente! – Contei-lhe alguns fatos e feitos dele – E bonito, sim, é bonito sim. Pelo menos para mim é lindo.
- E o que mais?
O que mais? Assim já estava forçando. Mas se formos analisar, para ela era um amor fútil: ele é inteligente e bonito. Grandes coisas. Por que mesmo? O que, mesmo? Ele é tímido e engraçado. Mas não sabia se isso eram características muito válidas.
- Ele é… tímido demais. E engraçado também, às vezes.
- Hum. E como isso aconteceu?
Aconteceu que um dia o vi, bem ali, na minha frente, me olhando como quem se distrai num ponto morto. Daí, gostei de suas maneiras, do jeito como mexe no cabelo, de como aperta a os lábios, acho que da voz, apesar de não me lembrar bem do som. Gostei de sua pele, de seu porte e de seus olhos, que me pareceram um poço infinito. Ou era assim que o descreveria hoje.
- Não sei. Eu gostei dele da primeira vez que o vi. É, era isso que eu queria dizer e não conseguia.
- Porque ele é tudo isso que você descreveu.
- Sim. Eu acho. Olha, eu sempre gostei muito dessa pessoa. Não precisa de motivos para amar, precisa?
- Não, realmente. Mas quero lhe entender, querida. Devo entender como você faz suas escolhas.
- Acho que não se escolhe se apaixonar.
Na verdade se escolhe. Sei disso, essa verdade está em cada maldita célula do meu corpo. Está incucada em cada canto do meu cérebro e grudada nas paredes cardíacas. Eu escolhi, fiz porque quis. Gostei dele espontaneamente, mas escolhi continuar gostando e deixar tudo tomar aquela intensidade. Mas nunca cheguei a dizer isso, para ninguém.
- Sim, sim. Então, foi assim ao acaso. Compreendo. E cadê ele agora? Ele sabe disso tudo?
- Sabe sim. Todos sabem. E ele, bem, não sei se ele se importa. Por isso o drama todo. Na verdade, estou em processo de esquecimento.
Ela riu. Sempre ria dos meus gracejos nada engraçados, e ria também de qualquer comentário que eu fizesse. Fosse pelo meu tom de voz, fosse pelo drama todo, fosse porque tinha pena.
- Entendo. Ah, essas paixões, ein!
- É, né. Isso acaba com a gente mesmo.
Mais gargalhadas afetadas.
- Então, querida, você contou para ele? Ou contaram?
- É tácito. Sabe, não precisa ser muito esperto para adivinhar certas coisas, ainda mais se tratando de mim.
- Eu duvido, você parece ser muito reservada às vezes. Não conta a história inteira.
- É que é tudo muito chato. E não me preocupo muito lá com detalhes. E quanto mais desagradável, menos irei falar sobre.
- Então amar assim é desagradável para você?
Era. Mas que pessoa horrível e sem coração que sou. Não gostava de amar assim, desse jeito. Era muito bonito e romantizado, mas não me agradava nem um pouco. Na verdade, sabia que não era saudável e que deveria parar com isso.
- Não. É que… me machuca, de certo modo. Orgulho, entende.
- Entendo. Então, vamos falar sobre a separação de seus pais.
Agora eu ri.
- Não, já falamos sobre isso. Eu a-do-rei eles terem se divorciado.
- Sem trauma?
- Nenhum.
- Ótimo. Sente saudades de alguém?
- Não.
- Não sente saudades?
- Raramente. Sinto falta de uma ou duas pessoas às vezes, mas é diferente de saudades, né?
- De quem?
- Da minha mãe e desse rapaz ai.
- Mais ninguém? E suas irmãs? E sua família?
- Não.
Que péssimo, sou uma péssima pessoa. Não sinto saudades, olha só. Uma megera.
- Hum. Já deu nosso horário. Tchau, querida. Vou te acompanhar até a porta.
- Tchau. Tenha uma boa tarde. Apesar de ter acabado com seus lenços.
Da porta, ela me riu de novo e acenou afetada. Ainda a ouvi resmungar ao entrar:
- Muito estranha mesmo. Onde já se viu…