Beijo seu rosto, e sei que posso fazê-lo por anos a fio sem você desconfiar de minha repulsa. Talvez você saiba que cada vez que sorrimos juntos, juramos assassinato mútuo.
Hoje você estava tão adorável, com seus olhos azuis enormes e brilhantes e superestimados. Só saíram palavras gentis de sua boca, como se quisesse mostrar que é melhor que minha ironia. Estou disposto, quando quiser, a mostrar-lhe como tudo o você fala apodrece em cinco minutos, sendo tão inútil para o mundo quanto sua inteligência, se é que há alguma.
De fato, você era a mulher mais linda do recinto, especialmente enquanto jogava esses seus cabelos de cor indefinida, maravilhosamente lisos – não é isso que suas amigas dizem enquanto se contorcem de inveja? Me pergunto se você tem amigas mesmo. Talvez tenha, afinal, é tão doce enquanto observa o sofrimento silencioso de todos ao seu redor, fingindo se importar e demonstrando essa sua vontade interminável de acabar com toda a tristeza do mundo.
Mas, minha amiga! Sabemos bem que quem a conhece intimamente a ama ainda mais. Sei muito bem como é fácil também, enganar os mais próximos, é isto que os rumores dizem que faço. Que podemos fazer? Desdenhar de sua sabedoria milenarmente construída sobre frases exaustivamente repetidas é um crime. Bom senso é seu nome do meio, não importa a circunstância, não importam os resultados que somente os tolos que a adoram não vêem.
Nos amamos mesmo assim, e você não poderia ser mais perfeita, querida e amiga.
E não é por menos: sei ser pior do que você jamais conseguiu ser, e como você disse, apenas a desprezo por inveja e mágoa.
Deixemos assim parecer.
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O homem andava muito despreocupado e sonhador pelas ruas. Não precisava que conhecessem sua história ou que o amassem. Sabia amar a vida, ou ser indiferente à ela. E assim, andava distraído e sonhador pelas ruas.
Passava por mil templos e pregadores, sempre ignorante das verdades e maldições que o atingiriam no eterno. Se eram barulhos ou silêncio, disso pouco sabia. Disso, sabia que era homem, que tinha seu trabalho, o alimento de cada dia e das roupas que o cobriam.
Inconformados com a serenidade indiferente do homem, todo tipo de pessoa o tentou convencer de que o mundo é mais do que o mundo, e as coisas não são e são muito o que parecem. O martelavam todos os dias e em todos os lugares com tanta sabedoria e estupidez, que homem começou a pensar se seus sonhos eram mesmo apenas sonhos.
Foi repentinamente estranho ver que seus sonhos não eram a realidade. Teve de se acostumar a acordar todos os dias e se perguntar se estava mesmo acordado, no mundo tão real e tão acusativo. Se o que acontecera à noite era aceitável pelas verdades ditas, e se não, se era sonho ou realidade, pois era difícil de passar de um mundo ao outro.
Passou a supor que seus sonhos eram verdade, em um mundo paralelo, como haviam dito os outros, existem dois ou mais mundos, e todos reais, e um muito melhor que o outro. E assim soube que seus sonhos eram acontecimentos de fato.
Assim, trazia relatórios desse mundo ideal todos os dias para quem pudesse e se interessasse.
Não demorou a ser identificado como um mensageiro, profeta, santo! Em todos os lugares em que caminhou foi venerado e procurado.
Por várias semanas teve tempo de deixar seu emprego, sua casa, roupas e comida. Seu emprego era sonhar, sua casa era templo mais generoso e roupas e comida eram o que lhe davam. Em sua testa, tatuara com a própria mão um terceiro olho dentro de um triângulo, instruído por mestres e místicos, de forma a abrir sua visão para os sonhos.
Muitas pessoas o pagavam muito dinheiro pelos seus sonhos e sabedoria. Não fosse seu desapego, seria rico. Sem ambição, porém, dispensava todo o lucro para o templo que o acolhia à ocasião.
Quando deixou de saber qual mundo era o que estava acordado em corpo, sua queda se iniciou. Agindo como se estivesse em sonho, disse atrocidades em plenos pulmões, entoava canções sem sentido, pulava períodos inteiros de tempo e pouco se importava com o decoro vigente. Aos olhos da sociedade que o cercava, a loucura o acometera.
Tão logo conquistou a fama, a perdeu e não demorou para ser posto na rua, para vagar e se elucidar.
Sem trabalho, roupas, comida e sanidade, vagou por todas as ruas. Pediu e pediu. Foi preso inúmeras vezes. Não sabia o que lhe acontecera, e se perguntava se não iria logo acordar.
E a última vez que foi visto, sentava-se no banco de concreto, trajando-se como uma criança. Devorava um pedaço de bolo como se o salvasse de toda a desnutrição e doença que o dominava. A comida parecia crescer em sua mão, não importava o quando mordesse, até que acabou, repentinamente. Sua tatuagem ainda estava exposta em sua testa, e via-se logo: gotas de sonhos brotavam dela em suor.
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Porque apenas gostar de sobrancelhas inexpressivas e ego tão grande não poderia apetecer por tanto tempo outra vastidão altérica-egórica. E se for para se encantar por expressões tão loucas perdidas em uma psicodelía interna tão desarrumada quanto suas estantes, tão inexpressiva quanto seu rosto. Antes se disfarçar de sol e ser a insolação que acomete os despreocupados e imprudentes. Não há nada novo nas sombras acima e abaixo do sol e continuamos os mesmos. E mesmo agora tão alterada e sem palavras consigo dizer que deveria ter bebido outro copo. Ser tão alcançável pode cansar e logo estaremos ambos brigando a pelo mesmo motivo que nos disse que era bom que nos espalhássemos. Guarde suas mãos delicadas e nervosas para pintar seu autorretrato que nunca fica pronto e estou sempre disposta a jogar água e cobrir com um pano. Que guardo minhas palavras ácidas para quem precisa e desperdiço os dias de divagação agitada com trabalhos enfadonhos e músicas dúbias.
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No baú guardei
um buraco negro
eternamente a sugar
uma estrela triste.
Esqueci o céu frio
azul e imutável
o neguei e rejeitei
e lá ele ficou.
Na campina verde invernal
apenas caminhei sem deitar
o corpo do passado.
Elegi os vitrais doces
e suas cores e luz
comigo carrego.
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Quem frequenta esse humilde cantinho sabe que deixei de fazer memes ou posts não “literais” há, tipo, anos. Mas fui coagida convidada pela Bia a responder umas perguntinhas.
Não que seja do interesse de vocês, mas pode conter algumas recomendações de leitura. Porque amo escrever, mas amo ainda mais ler, e sou particularmente maluca por livros.
Meta de Leitura: Honestamente, não tenho. Minha meta se restringe aos 15 livros que tenho para ler atualmente. Conforme compro outros vou lendo e lendo e lendo. Quem sabe eu volte a anotar e poste a lista em algum lugar.
Primeiro do Ano: O Pensamento Vivo de John Lennon. Foi uma releitura, na verdade, mas conta. O primeiro não-lido que estou lendo é Primeiras Estórias, Guimarães Rosa.
Gênero que vou ler mais: Ficção Científica. Ah, adoro.
Gênero que vou ler menos: Nenhum, magina, ler menos algum gênero!
Lançamento internacional mais aguardado: Parei de aguardar lançamentos com Harry Potter.
Lançamento nacional mais aguardado: ^
Continuação de saga mais aguardada: Silencio, da Becca Fitzpatrick.
Final de saga mais aguardado: Sagas atuais não têm fim.
Próximas compras: Toda a triologia de Jogos Vorazes (intimada, cof cof) e todos os livros de Sherlock Holmes. E o que mais encontrar no sebo baratinho.
Aparentemente, tem que escolher alguém para continuar. E, bem, eu escolheria a Carol. Mas aí vai do juízo dela querer fazer ou não.
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O dia estava insolitamente bicolor. Era tudo branco e preto. Mesmo os sons da rua pareciam tímidos. Nem os passarinhos cantavam. Guilherme não conseguia parar de se perguntar se não estava preso em algum filme mudo de Chaplin ou coisa parecida. Parado no ponto de ônibus, sentia o mundo girar ao seu redor. Um caleidoscópio preto e branco com cheiro de terra molhada.
Talvez fosse o sono atrasado que o fizesse duvidar da certeza clara e concreta que era os olhos da moça ao seu lado.
Precisou olhar no mínimo cinco ou seis vezes.
Bem, um olho era castanho claro. Gentil, doce, lembrava nozes de natal.
O outro era azul. Azul céu, desses azuis incontestáveis. É azul e ponto, muito bonito o seu olho azul.
E o mundo parecia girar ainda mais.
Afinal, perdera uma lente? Não parecia o caso. Eram naturais, Guilherme podia ver isso. Naturais. A moça tinha uma dessas alterações genéticas e tudo mais. Provavelmente sofreu na escola, o que explica a atitude reservada. Embora estivessem em um ponto de ônibus, não em um bar com bebida grátis. Talvez fosse o sono atrasado.
Guilherme a olhou mais uma sétima ou oitava vez. Os olhos. Nem sabia se era o esquerdo ou direito que era castanho ou azul. Ela parecia ser bonita. Tinha algo laranja. A cor do cabelo? Quem liga para cor de cabelo quando os olhos são tão caleidoscópicos?
—
Parecia que a chuva iria ceder, e mais duas cores foram acrescentadas ao cinema mudo. Um verde primaveril despontava de todas as partes, e aqui e ali surgiam manchas aguadas de azul no céu.
O banco de Guilherme estava completamente reclinado. A viagem era relativamente curta, mas iria aproveitar de cada pequeno conforto e tempo para dormir. Voltaria logo para casa, mas antes viajaria muito.
Na janela milhares de plantas e árvores cobriam a serra grande e eterna. Na verdade, tudo parecia um grande brócolis. Sempre pensava em brócolis.
Fechou os olhos, versões escuras da paisagem continuaram a passar no verso das pálpebras.
Antes de dormir, um olho castanho piscou para ele. E o par azul sorriu de canto.
—
A vida se passa em um ponto de ônibus, pensava Guilherme insistentemente. E nem sempre há coisas legais em pontos de ônibus. Apenas gente entediada, cansada.
Vinte minutos depois, estava no último banco, confortavelmente enroscado em seus fones de ouvido. Iria para casa.
Mais uma vez, estava na serra eternamente coberta de brócolis. E para sua sorte, o sol se punha. Os raios escapavam entre as saliências das rochas descompostos em duas cores. Vermelho e laranja. De repente, tudo estava banhado de fogo, o ônibus contornava a estrada, jogando os passageiros de um lado para o outro. Um caleidoscópio gigante. Em chamas.
E quando a viagem acabou, Guilherme se adiantou para frente cedo demais e acabou esperando sentado. Ao seu lado, uma moça de saia laranja também esperava. E dessa vez ele olhou três vezes até entender que eram os mesmo olhos díspares de mais cedo, no filme mudo. Ela, por sua vez, o viu e teve de rever, lembrando do rosto e das roupas.
Sorriram juntos, quase rindo da coincidência.
E ela era realmente linda.
O olho direito castanho claro. O esquerdo azul.
Se girasse seria um caleidoscópio.
Desceram e foram cada um para seu caminho, a nunca mais se verem.
E para Guilherme, os cabelos dela eram vermelhos e laranja.
A moça toda cores.
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A padaria já estava para fechar. Era meia-noite passada, já que no fim do ano era costume o estabelecimento ficar aberto até mais tarde. Júlio terminava de arrumar as últimas coisas no balcão. Estava cansado, trabalhara o dia todo em pé, mal tivera tempo de comer ou sequer pensar.
Mas sabia que ainda não tinha acabado. Faltava o último dos últimos clientes. O velho tomava sempre o último chocolate quente do dia. Não importava o clima. Mesmo no verão, aos 31°C da noite, o senhor pedia o tal do chocolate quente e bebia até o fim. Júlio sabia que era um homem sozinho e que provavelmente não sabia cozinhar muito bem. O balconista e o senhor costumavam conversar até o fim da noite, quando, finalmente, as portas da padaria eram fechadas e Júlio podia subir em sua moto e ir para casa. Não sabia onde o velho morava, mas devia ser perto, talvez ali do lado.
Portanto, Júlio enrolou por dez minutos naquela noite, esperando o último cliente.
Ouviu com uma certa alegria o senhor passar pela caixa na noite e a cumprimentar. Gostava do velho, e embora ele não aparecer não fosse grande coisa, certamente ficaria preocupado. Ele era bem velho.
O senhor se aproximou do balcão se apoiando pesadamente em sua bengala de madeira. Toda vez que Júlio olhava para ele não via o idoso encurvado, cheio de rugas com uma barriga de bola – via o vigoroso homem que ele devia ter sido mais novo. Via um homem alto, forte, com cabelos espessos, olhos brilhantes. Era uma imagem forte, mesmo após anos de convivência de fim de expediente.
O último cliente sentou-se em um dos bancos junto ao balcão e cumprimentou afavelmente:
- Boa noite, Júlio. Como vai?
Como sempre, o balconista sorriu e respondeu no mesmo tom afável:
- Boa noite, seu Leôncio. O de sempre?
- Sim, Júlio, o de sempre.
Enquanto Júlio preparava a bebida em uma xícara já separada, Leôncio apoiou-se melhor no balcão continuou falando:
- A vida, meu rapaz, é estranha. Desculpe se pareço, hã, pedante ou aborrecido. Sou um homem velho, mas nunca o importunei com conversas de velhos, não é? Pelo menos espero que não! Hê. Mas hoje não foi um dia muito bom, sabe. Aconteceu tudo o que não podia. Levantei com o pé esquerdo, sabe. Na hora do almoço já tinha amaldiçoado metade dos meus vizinhos e pelo menos vinte divindades. Mas apesar disso, me peguei pensando agorinha mesmo: a vida é estranha e boa, meu rapaz. A vida é estranhíssima. Ah, muito obrigado!
O chocolate estava pronto. Seu cheiro se espalhava por todo o lugar, antes cheio. O idoso misturou e bebida displicentemente, provavelmente mastigando a continuação do discurso.
- Hoje o senhor está com uma conversa diferente das outras, mas não chata. Pode continuar. Veja, até me sentarei aqui perto.
- Então faça um chocolate para si, moleque! Eu pago…
- Muito bem. Estou morto de fome mesmo…
- E a Vanessa? – se referia à moça no caixa.
- Ela já lanchou. E não se importa de me deixar aqui sozinho, já fechamos o expediente mesmo.
- Então esse chocolate…?
- Por conta da casa. Fica tranquilo, seu Leôncio.
- Bem, tudo bem… amanhã eu pago… se não acordar completamente gagá, não é?
Ambos riram alegremente. Júlio preparou sua ceia com rapidez, e sentou-se ao lado do senhor.
Comeram e beberam sem silêncio por alguns minutos. Na metade do processo, Júlio o indagou:
- Então, o que o senhor ia dizendo?
- Ah, sobre a vida ser estranha.
- Sim. Pode me dizer porquê?
- A vida é estranha, rapaz. Estava refletindo. Veja, tenho um amigo que se envolveu em um esquema de corrupção dentro do governo do estado. Ele era apenas um acessor, mas começou a mexer com dinheiro grande. Uma hora, ele sabia que não daria mais para manter encoberto. O esquema era tão sujo, que por mais que tentassem, não seria possível abafar. E ele sabia que não iria se safar. Os grandões, os políticos talvez fossem, mas ele não. Como disse, era um simples acessor.
- E o que ele fez?
- Ele começou a correr. Correr mesmo, pra valer. Em dois meses, corria 20 quilometros em 37 minutos. Ele devia ter muito medo, pois nunca vi alguém alcançar tal desempenho em tão pouco tempo. Isso e aulas de defesa pessoal, o dinheiro vivo estocado e documentos falsos.
- Bem esperto ele. E então?
- Bom, quando o esquema estourou – e vou te dizer estourou bem alto e bem fedido – quando todos descobriram, ele simplesmente saiu correndo. O cara não pegou carro, ônibus, nada. Simplesmente trocou de roupas, ali no escritório mesmo. Tirou o terno e pôs shorts e camiseta de corrida, e foi embora. Não que fosse necessário. A polícia nem estava lá, demoraria dias para aparecer e prender alguém de fato. Talvez houvessem CPIs e o diabo. Não precisava fugir como ele fez. Mas foi assim. E não estou mentindo.
- Acredito em cada palavra. Esse cara devia ter enlouquecido.
- Será? Ele correu até uma casa de subúrbio que ele possuía ilegalmente para guardar coisas ilegais, sabe. Colocou comida na mala, pegou dinheiro e voltou a correr. Rapaz, ele correu até um sítio, a mais de 60 quilometros de distância. Tem idéia do que é isso?
- Nem consigo imaginar.
- Claro que ele chegou de manhãzinha, considerando que a corrida começou no fim do expediente, às 17 horas, mais ou menos.
- E o sítio?
- Bem, tinha uma senhora morando lá.
- Ela deu abrigo?
- Deus, não! – Leôncio deu uma gargalhada – Ela atirou nele com uma espingarda!
- O quê? E acertou? – disse Júlio rindo também.
- Acertou. Ela ouviu uma pessoa rondar o terreno e simplesmente atirou.
- Matou o cara?
- Não, ele se matou.
- Como?
- Bem, ele se viu baleado e surtou, é claro. O cara foge da polícia a pé por mais de 70 quilometros, contando a distância do trabalho até em casa, e quando chega em um lugar teoricamente isolado e seguro, leva chumbo sem nem saber de onde veio.
- Bom, louco ele já estava.
- Sim, mas que situação, não?
- Ele mereceu.
- Ninguém merece morrer, rapaz!
- Não, ele mereceu se dar mal. O cara roubou dinheiro público, ajudou figurões e foi estúpido o suficiente para pensar que escaparia correndo.
- Como eu ia dizendo, a vida é estranha. Mas as pessoas são mais ainda.
Ficaram em silêncio por alguns minutos. Júlio terminou seu lanche, e Seu Leôncio tomou o último gole de chocolate quente.
O balconista se levantou e começou a limpar os vestígios da refeição noturna. Estavam só os dois na padaria, Vanessa fora embora há algum tempo. Então, quando tudo estava em seu lugar e todas as luzes apagadas, se dirigiram para a porta. Júlio trancou todas as fechaduras e enfiou as chaves no bolso. Leôncio olhava para ele, esperando o boa noite habitual.
- Como ele morreu?
- Eu disse que ele se matou, mas não se sabe ao certo se foi suicídio mesmo. O corpo dele foi encontrado dois dias depois, na margem de um rio que corre perto do sítio em que ele foi baleado. Estava todo inchado. Morreu afogado. Uma legista perita chegou a sugerir assassinato, pois havia marcas no pescoço do cara. Mas não passou de uma sugestão, seja pela imensa improbabilidade, seja porque alguém mais poderoso estava envolvido. Enfim, ninguém sabe, e o caso foi arquivado.
- Entendo…
- Mas nos faz pensar, não é? O cara poderia não ser louco. Talvez a ameaça não fosse a polícia ou coisa assim. Vai saber. Essa gente se envolve com coisas perigosas.
- Não vejo capangas perseguindo alguém a pé.
- Nem eu. Mas às vezes penso que tinha alguém sim, atrás dele. E esse alguém o perseguiu a pé, correndo. E o cara corria porque sabia que se o pegassem ele não teria chances…
- Ou fugisse de si mesmo.
A luz do poste falhou, dando um pequeno susto na dupla. Tão logo viram o que era, começaram a rir. Júlio se adiantou para a moto estacionado ali perto.
- Dessa vez fiquei com medo. Admito. Enfim, boa noite, seu Leôncio!
- Boa noite, Júlio. Não corra demais! – respondeu o velho ainda rindo.
- Pode deixar!
E foi embora para o escuro caminho até sua casa.
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