04/12/2009 por Heloisa

Ando muito cheia de dúvidas.
Pontos de interrogação, interrogaçãos, interrogações, ações.
Muito cheia de suposições.
Indagações, pensamentos, futuro perfeito do pretérito.
E pretérito me lembra patético, antiséptico.
E lá vem. Mais curiosidades, mais anuidades, saudades.
Em tudo, uma posição, uma sugestão e imaginação.

Alguém tem as respostas? Será que ele me dá a resposta? Quão disposto estaria para sanar essas dúvidas, esses pontos de interrogação, essas suposições e curiosidades doentias, eternas e cheias de si. Cheias, não vazias.

curiosidades

04/12/2009 por Heloisa

Será que esse moço
encontrou ouro,
e por isso corre
(será que foge?)?

E esse velho,
quantas memórias
quantas histórias,
já não viu e narrou.

Que será que ela pensa
para parecer tão tensa?
será uma sentença,
uma nascença?

Essas pessoas que passam,
Não sei se reparam,
que tudo o que quero
é ter com elas um elo.

com quem falar.

02/12/2009 por Heloisa

Preciso dizer: eu converso com Vênus.
Cansei-me de falar sozinha, depois de anos assim, queremos que alguém responda, nos escute. Então, passei a conversar com Vênus. Todas as manhãs temos encontro marcado. Levanto ainda de noitinha e vou lá fora, olho para o leste e a espero. Logo vem Vênus, brilhante. A primeira estrela, a única que realmente nos escuta.
Falamos sobre tudo. Descrevo o sabor de algumas coisas deliciosas, como géleia de amora, baunilha no bolo, lábios em beijo, o elogio sincero e as cores. Ela me conta do gosto do sol, o som dos planetas girando, das estrelas que nunca veremos e dos ventos galáticos. Me disse que a Via Láctea tem mesmo cheirinho de leite, mas o gosto não é tão bom. Um cometa amargo e ranzinza contou. Quando falo sobre os humanos, do mar e das árvores, ela fica muda; concentrada. Segundo ela, a Terra cansou-se de ser como todos os outros planetas, fez uma bela roupa para si: verde e azul. Mas acabou que se envaideceu e esnobou os outros planetas. Então, dessa roupa que “diferente e linda é” viemos nós. Frutos da vaidade e desprezo.
“Talvez”, a contei um dia, “talvez seja por isso que esses pequenos bichinhos, nós humanos, sejamos tão cheios de rancor, tão pouco gentis”.
Ela concordou.
Mas Vênus também fala de amor. Disse que nada sabia, e o título que os romanos lhe deram era desmerecido. Mas gosta do amor. O entende como ninguém. Conto de meus amores do passado, de meus possíveis futuros. E ela me ri. Ri! Acha engraçado o drama que fazemos pelo amor, que é o amor, oras. Tão simples quanto a matéria negra, diz ela. Discordo, é tão simples quanto o interior de um buraco negro. E ri mais ainda.
Assim conversamos.
Eu cada vez mais fora desse mundo, ela cada vez menos mundo.

coisas que não deveriam rimar

29/11/2009 por Heloisa

retor(na o)no(ivo)
em t(ã)o(ado)rno
(re)entorna.
en(quanto)tr(ag)o.

vol(atil)ta(lvez)
recol(hei)ta
revol(lução)ta(rdia)

mort(um)e
so(-ar)rte
po(b)r(e)te(rra)
(tão)forte

26/11/2009 por Heloisa

O que ela faz ali, correndo na areia, negligenciando o mar e sendo tirana com seus próprios pulmões e corpo? No que ela pensa, enquanto encara o longo caminho da praia, enquanto ignora os comerciantes, os primeiros passantes ali na orla? Todos também querem saber o por quê.
Teria ela percebido estar apenas de pijamas, aliás, pijamas patéticos e velhos. Que está descalça e descabelada, desvairada.
Às vezes fecha os olhos. Os olhos escuros e úmidos, o olhar de desalento, alegria reprimida e inteligência. Assim, tudo junto mesmo. Ela já viu muita coisa, e aperta as pálpebras violentamente para não ver muito mais, para rever outras. Uma hora ela percebe que está amanhecendo, que o sol já manchou o mar de luz, que tudo muda ao seu redor. Será que a exaustão já chegou dominadora em seu corpo? E o que foi feita dela? Engolida pelas trevas vermelhas, pela raiva da menina, tão pequena e frágil na praia brava.
No que ela estava pensando? No que ela tanto pensa?

O que ela faz aqui, que não faz lá?